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HOMILIA
eSCRITA POR Pe. C.Madrigal, o.s.a.- ciriacomadrigal@gmail.com

DIA 19 DE AGOSTO DE 2018

A celebração da Assunção de Maria aos céus, neste Domingo, é uma festa de alegria e de vitória. É, sobretudo, a expressão da nossa esperança de que um dia estaremos, como ela, na presença do Pai, ressuscitados e gloriosos.

A convicção do povo católico de que Nossa Senhora foi “levada aos céus", de onde intercede por nós, sempre animou a Igreja em sua caminhada e em sua luta contra o mal pela construção do Reino de Deus. Foi recolhendo este sentir dos fiéis que o papa Pio XII, em 1950, declarou esta crença ser verdadeira e dogma de fé, dizendo: Proclamamos, celebramos, definimos ser dogma divinamente revelado, que a Imaculada Mãe de Deus, sempre Virgem Maria, completada sua etapa de vida na terra, foi assunta em corpo e alma à glória”.

No entanto, é preciso ter em conta que uma coisa é a verdade que se quer definir e outra, bem diferente, a forma de expressar essa verdade. Ninguém, no tempo de Jesus, teria entendido essa definição dogmática, simplesmente porque foi feita usando conceitos completamente alheios ao seu modo de pensar. Para eles o ser humano não estava composto de duas partes (corpo e alma); era uma única realidade que podia ser percebida sob diversos aspectos, mas sem perder nunca a sua unidade.

Quando o dogma fala em corpo e alma, não devemos entender isso como o material e biológico por uma parte, e o espiritual por outra. O que o dogma afirma é que todo o ser de Maria chegou a identificar-se com Deus e o que queremos expressar na celebração da festa da Assunção de Maria, é justamente isto.

Pensar que um ser físico, Maria, que se encontrava num determinado lugar, na terra, foi transladado para outro lugar, o céu, não tem muito sentido. Faz anos o papa São João Paulo II disse que o céu não é um lugar, mas um estado de vida. Parece que esta explicação ainda não foi entendida e aceita em nossa linguagem habitual.

O dogma propõe que a salvação de Maria foi absoluta e total, ou seja, que alcançou uma plenitude que só pode consistir na identificação com Deus. Trata-se de uma mudança de estado de vida. Maria terminou o ciclo de sua vida terrena e chegou à sua plenitude por um processo interno de identificação com Deus. Nessa identificação com Deus chegou ao limite das possibilidades humanas. Justamente essa é a meta para a qual todos nós estamos chamados a aspirar.

Refletindo sobre a Palavra de Deus, a seguir, poderemos afirmar que do mesmo modo que o Filho de Maria morreu e ressuscitou, a Mãe d’Ele também venceu a morte, ressuscitando gloriosa como primeiro fruto da ressurreição do Filho. A Igreja se alegra com o triunfo da Mãe sobre a morte e sobre o mal, que é causa da morte.

PRIMEIRA LEITURA:  Apocalipse 11,19; 12,1-6.10

19 Abriu-se então o Templo de Deus que está no céu, e apareceu no Templo a arca da aliança. Houve relâmpagos, vozes, trovões, terremotos e uma grande tempestade de pedra................... 1 Apareceu no céu um grande sinal: uma Mulher vestida com o sol, tendo a lua debaixo dos pés, e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. 2 Estava grávida e gritava, entre as dores do parto, atormentada para dar à luz. 3* Apareceu, então, outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo. Tinha sete cabeças e dez chifres. Sobre as cabeças sete diademas. 4 Com a cauda ele varria a terça parte das estrelas do céu, jogando-as sobre a terra. O Dragão colocou-se diante da Mulher que estava para dar à luz, pronto para lhe devorar o Filho, logo que ele nascesse. 5 Nasceu o Filho da Mulher. Era menino homem. Nasceu para governar todas as nações com cetro de ferro. Mas o Filho foi levado para junto de Deus e de seu trono. 6 A Mulher fugiu para o deserto. Deus lhe tinha preparado aí um lugar onde fosse alimentada por mil, duzentos e sessenta dias....................10 Ouvi, então, uma voz forte no céu, proclamando: «Agora realizou-se a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo. Porque foi expulso o acusador dos nossos irmãos, aquele que os acusava dia e noite diante do nosso Deus.

O texto desta primeira leitura, tirado do livro do Apocalipse, apresenta o combate permanente entre o bem e o mal, representado pela oposição entre a mulher, grávida da Vida (como imagem do novo Povo de Deus, que é a Igreja), e o dragão (personificação do mal) que a quer destruir.

O dragão representa todo mal, especialmente o egoísmo, o orgulho e a autossuficiência que deformam as pessoas e os grupos sociais. Ele tem a pretensão de lutar contra Deus, devorando o Filho da Mulher, o Messias que veio para destruí-lo. Mas o Filho
“foi levado para junto de Deus”
e a Mulher para onde “Deus lhe tinha preparado... um lugar” e assim “foi expulso o acusador dos nossos irmãos”.

É fácil compreender esta linguagem e entender por quê muitos Padres da Igreja consideram que a “mulher” do Apocalipse se refere a Maria e seu “filho” se refere a Jesus, que veio ao mundo para destruir o poder do mal. O lugar preparado para Maria só poderia ser ao lado de seu Filho Jesus, junto de Deus. O texto não fala explicitamente da Assunção de Nossa Senhora, mas o deixa entrever claramente com essas palavras.

Finalmente, a leitura termina com um cântico que celebra as maravilhas do Senhor, vencedor da morte (“Agora realizou-se a salvação, o poder e a realeza do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo. Porque foi expulso o acusador dos nossos irmãos, aquele que os acusava dia e noite diante do nosso Deus”). Estas palavras podem se aplicar à vitória de Maria sobre a morte que hoje celebramos como primeiro fruto da Redenção operada por seu Filho.

A Igreja se alegra com a vitória do Filho e da Mãe, na medida em que, com isto, abre-se um caminho de esperança para toda a humanidade. Os homens do nosso tempo precisam desta mensagem de vitória sobre a morte, que é o grande enigma da humanidade.


SEGUNDA LEITURA:  1Corintios 15, 20-27

20 Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos como primeiro fruto dos que morreram. 21 De fato, já que a morte veio através de um homem, também por um homem vem a ressurreição dos mortos.22 Como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos receberão a vida.23 Cada um, porém, na sua própria ordem: Cristo como primeiro fruto; depois, aqueles que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda. 24 A seguir, chegará o fim, quando Cristo entregar o Reino a Deus Pai, depois de ter destruído todo principado, toda autoridade, todo poder. 25 Pois é preciso que ele reine, até que tenha posto todos os seus inimigos debaixo dos seus pés. 26 O último inimigo a ser destruído será a morte, 27 pois Deus tudo colocou debaixo dos pés de Cristo. Mas, quando se diz que tudo lhe será submetido, é claro que se deve excluir Deus, que tudo submeteu a Cristo.

A ressurreição de Cristo não é um fato individual que só teria acontecido com Jesus. São Paulo faz questão de salientar que, por causa da união íntima entre Cristo e os cristãos, Ele ressuscitou não como o “único”, mas como “primeiro fruto” de muitos. É o início de uma nova humanidade porque “como em Adão todos morrem, assim em Cristo todos receberão a vida”. A ressurreição do Senhor é o primeiro fruto da colheita de Deus e, nela, começa a nossa própria ressurreição.

Nesta “colheita de Deus”, porém, na qual aparece “Cristo como primeiro fruto”, Nossa Senhora só pode estar no lugar privilegiado que lhe corresponde, entre “aqueles que pertencem a Cristo”. Por isso a Igreja acredita que ela foi a primeira em ressuscitar, logo após a sua morte, sem esperar o fim dos tempos para ir reunir-se com seu Filho. Aquela que foi concebida sem o pecado original e esteve unida a Cristo do seu nascimento até a morte de cruz, não poderia esperar para unir-se a Ele na Glória.

O mistério de Maria, porém, seria incompreensível sem uma ligação direta com o mistério de Cristo e sem uma referencia clara à história dos cristãos. Neste sentido, o mistério da Assunção de Maria só se entende como prolongação da Páscoa (morte, ressurreição e glorificação de Cristo) e como sinal de esperança para as aspirações mais profundas do ser humano que espera e deseja sobreviver após a morte. Vale a pena viver, sofrer, trabalhar e enfrentar dificuldades porque tudo isso terá um final feliz.

A crença na Assunção de Nossa Senhora, portanto, encontra seu sentido na doutrina que São Paulo expõe a respeito da Ressurreição e a sua importância radica na relação que há entre a Ressurreição de Cristo e a nossa.

A presença de Maria, mulher de nossa raça, ser humano como nós, a qual já se encontra glorificada em corpo e alma no Céu, é um prelúdio e antecipação de nossa própria ressurreição.


EVANGELHO: Lucas 1, 39-56

39 Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, às pressas, a uma cidade da Judéia. 40 Entrou na casa de Zacarias, e saudou Isabel. 41 Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança se agitou no seu ventre, e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42 Com um grande grito exclamou: «Você é bendita entre as mulheres, e é bendito o fruto do seu ventre! 43 Como posso merecer que a mãe do meu Senhor venha me visitar? 44 Logo que a sua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança saltou de alegria no meu ventre. 45 Bem-aventurada aquela que acreditou, porque vai acontecer o que o Senhor lhe prometeu.» 46 Então Maria disse: «Minha alma proclama a grandeza do Senhor, 47 meu espírito se alegra em Deus, meu salvador, 48 porque olhou para a humilhação de sua serva. Doravante todas as gerações me felicitarão, 49 porque o Todo-poderoso realizou grandes obras em meu favor: seu nome é santo, 50 e sua misericórdia chega aos que o temem, de geração em geração. 51Ele realiza proezas com seu braço: dispersa os soberbos de coração, 52 derruba do trono os poderosos e eleva os humildes; 53aos famintos enche de bens, e despede os ricos de mãos vazias. 54 Socorre Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55 - conforme prometera aos nossos pais - em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre.» 56 Maria ficou três meses com Isabel; e depois voltou para casa.

É realmente admirável a iniciativa de Maria de visitar sua prima Isabel, enfrentando uma viagem difícil e perigosa, naquele tempo e por aqueles caminhos, para uma mulher sozinha (“Maria partiu para a região montanhosa,....”). Não se tratava de uma visita de cortesia. Foi mesmo para servir Isabel durante os três meses que lhe faltavam para dar à luz. Ninguém pediu sua ajuda. Ela se antecipou à necessidade e o fez “às pressas” porque o amor não conhece preguiça nem demora.

O encontro com o irmão necessitado é sempre o caminho que facilita o encontro com Deus. Foi assim que o Espírito de Deus se fez presente e “Isabel ficou cheia do Espírito Santo” para proclamar aquilo que faz parte de uma das orações mais comuns na Igreja (“Você é bendita entre as mulheres, e é bendito o fruto do seu ventre!”). Como consequência João Batista, no seio materno, recebe o Espírito de Deus (“a criança saltou de alegria no meu ventre”), reconhecendo o Messias, já presente no seio de Maria, e anunciando a sua presença através da exclamação de sua mãe Isabel.

Maria, sentindo-se agraciada por ser portadora do Salvador, expressa sua fé e confiança com palavras inspiradas no Antigo Testamento. Faz da Palavra de Deus sua própria palavra e mostra-se plenamente identificada com a vontade do Pai, reconhecendo em sua vida o amor gratuito de Deus.

O cântico de Maria (o “Magnificat”) é o cântico dos pobres que reconhecem a vinda do Filho de Deus para libertá-los não só do pecado, mas, também, da opressão. Sabe que Deus, cumprindo a promessa que fez pelos profetas, irá assumir a causa dos pobres e realizar uma transformação na história (“derruba do trono os poderosos e eleva os humildes”), invertendo a ordem social (“aos famintos enche de bens, e despede os ricos de mãos vazias”) e libertando os pobres e oprimidos para que assumam a direção dessa nova história.

Revolucionárias essas idéias de Nossa Senhora....? Pois é, assim parece! Mas é o que ela diz. É o que a Bíblia diz. Não dá para entender de outra forma. Significa isto que nós, cristãos, só podemos estar na linha de frente das transformações sociais!

Se existe uma mulher, ao longo da história, que tenha sido conhecida, venerada e amada, essa é Maria, a Mãe de Jesus. Quando pronunciou aquelas palavras (“Doravante todas as gerações me felicitarão”), era uma desconhecida. Hoje, dois mil anos depois, essas palavras são uma realidade.

Humanamente falando, ela não fez grandes coisas na sua vida. Do ponto de vista de nosso mundo materialista, obsessionado pela utilidade das coisas, onde a pessoa vale pelo que produz, ela não fez nada digno de especial consideração. Apenas se colocou humildemente nas mãos de Deus como serva obediente. Viveu a vida dura de uma mulher do povo do seu tempo, acompanhou seu Filho desde o presépio até a cruz, passando pelo exílio forçoso, acreditou, esperou, amou... e, desta forma, abriu as portas do seu coração para  que Deus fizesse maravilhas em sua vida e em sua existência.

Maria é imagem da Igreja, que somos nós. Como ela, a Igreja está no mundo, grávida da Palavra de Deus. É preciso valorizar este tesouro do qual somos portadores, cuidando que esta Palavra de Vida não seja neutralizada pela ação desintegradora do mal que assola a sociedade e as relações humanas. Devemos renovar constantemente o sentido da nossa missão e poder “dar à luz” o Cristo Salvador num mundo que, sem sabê-lo, busca-o ansiosamente como que às apalpadelas.

Por isso, em meio às dificuldades, podemos contemplar Maria, a mulher do Apocalipse. Ela nos mostra que, para transformar a realidade, temos que conservar o otimismo, acreditando na presença providente de Deus, esperando com teimosia um mundo melhor e amando sem preconceito e desinteressadamente todos os nossos irmãos sem distinção. E se, dada a nossa fragilidade humana, sentirmos dificuldade em imitá-la, sabemos que, lá no céu, temos a grande sorte de poder contar com ela, ao lado de seu Filho, para interceder por nós com amor de mãe.

+ Numa sociedade machista, cuja ideia de Deus significa poder e autoridade, o subconsciente encontrou o modo de falar do feminino de Deus através de uma figura humana, que é Maria. Não podemos prescindir da imagem do feminino se quisermos entender melhor a divin­dade. Existem aspectos de Deus, que só podemos expressar através das categorias femininas. É claro que chamar Deus de Pai ou Mãe, apenas são metáforas para poder expressar-nos. Usando só uma das duas, a ideia de Deus fica falsificada porque podemos ficar presos apenas a uma categoria (masculina ou feminina).

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07, 08 E 09 DE setembro DE 2018 EM sÃo paulo (SP)

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