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HOMILIA
eSCRITA POR Pe. C.Madrigal, o.s.a.- ciriacomadrigal@gmail.com

DIA 22 DE OUTUBRO DE 2017

Neste domingo das MISSÕES a Igreja nos lembra que é preciso descobrir na história o agir de Deus com seu poder salvador. Para tanto é necessário estar atentos “aos sinais dos tempos” para perceber que a Igreja tem que sair de si mesma e ir para o meio da sociedade humana para iluminá-la com a luz da fé.

A Palavra de Deus irá nos mostrar como a Divina Providência age, também, através dos pagãos (1ª leitura). Os homens que atuam e intervêm na história da humanidade podem ser instrumentos dos quais Deus se serve para concretizar os seu projeto de salvação como aconteceu com o pagão Ciro, rei da Pérsia, permitindo o povo judeu, escravizado na Babilônia, voltar para a sua terra e reconstruir o Templo de Jerusalém e a sua vida. Mas nem sempre o poder temporal e o poder de Deus caminham juntos, como veremos pela cilada que o poder religioso da época armou contra Jesus (evangelho). Neste episodio, Jesus ensina que, sem deixar de cumprir as nossas obrigações cívicas com a comunidade em que estamos inseridos, pertencemos a Deus e devemos entregar toda a nossa existência nas mãos d'Ele. Por isso Paulo nos recomenda agir com aquela fé ativa, amor e esperança (2ª leitura) que depositamos em Cristo Jesus, nosso Senhor.

1ª Leitura: Isaias 45, 1.4-6

1 Assim diz Javé a Ciro, o seu ungido, que ele tomou pela mão: Dobrarei as nações diante dele e desarmarei os reis; abrirei diante dele as portas, e os batentes não se fecharão. 2 Eu mesmo vou na frente de você, aplainando as subidas; arrombo as portas de bronze e arrebento as trancas de ferro. 3 Vou lhe entregar os tesouros escondidos e as riquezas encobertas, para que você fique sabendo que eu sou Javé, o Deus de Israel, que chama você pelo nome. 4 Por causa de meu servo Jacó, e de Israel, meu escolhido, eu chamei você pelo nome e lhe dei um sobrenome, embora você não me conheça. 5 Eu sou Javé, e não existe outro; fora de mim não existe deus algum. Eu armei você, ainda que você não me conheça, 6 para que fiquem sabendo, desde o nascer do sol até o poente, que fora de mim não existe nenhum outro. Eu sou Javé, e não existe outro:

Depois da conquista da Babilônia (539 a.C.), o rei da Pérsia, Ciro, fez um decreto pelo qual concedia a liberdade religiosa a seus súditos e, inclusive, mandou reconstruir o templo de Jerusalém. Esta nova política permitiu os exilados judeus voltarem para a sua terra, como se fosse um novo êxodo da escravidão para a liberdade.

Nesta iniciativa de um rei pagão, o profeta vê a mão de Deus; não duvida em chamá-lo de “ungido” e dizer que Deus o “tomou pela mão” e o abençoou (“Eu armei você, ainda que você não me conheça”), porque Ele é o Senhor da história e Aquele que dirige as nações e os acontecimentos para dar liberdade e vida ao seu povo.

Para realizar o seu projeto, serve-se da história dos povos, chegando mesmo a tomar um rei pagão para revesti-lo com a função de messias (ungido), própria dos reis de Israel. Isto mostra que o Deus vivo não está confinado a um templo, nem a uma instituição, nem a determinada estrutura de religião. Pode servir-se de dirigentes sem religião, se forem competentes e honestos para promover o bem-estar e a paz. O contrário, porém, também pode acontecer: nem toda pessoa "religiosa" tem a necessária competência para bem realizar uma função pública.

Normalmente, Deus não intervém na história através de manifestações extraordinárias, mas podemos ver a mão de Deus na história humana em tudo o que há de bondade ou em princípios éticos e sociais dos povos e dos governantes que dão preferência ao bem de todos sobre outros valores.


2ª Leitura: 1Tessalonicenses 1, 1-5b

1 Paulo, Silvano e Timóteo à igreja dos tessalonicenses, que está em Deus Pai e no Senhor Jesus Cristo. A vocês, graça e paz. 2 Agradecemos continuamente a Deus por todos vocês, sempre que nos lembramos de vocês em nossas orações. 3 Com efeito, diante de Deus nosso Pai nos lembramos sempre da fé ativa, do amor capaz de sacrifícios e da firme esperança que vocês depositam em nosso Senhor Jesus Cristo. 4 Irmãos amados por Deus, sabemos que vocês foram escolhidos por ele. 5 De fato, o Evangelho que pregamos não foi apresentado somente com palavras, mas com poder, com o Espírito Santo e com plena convicção.

Tessalônica foi evangelizada por Paulo, mas o tempo de evangelização foi curto demais; no entanto, foi o suficiente para fazer nascer uma comunidade cristã numerosa e entusiasta, constituída majoritariamente por pagãos convertidos. Se fato, a obra de Paulo foi brutalmente interrompida pela reação da colônia judaica. Paulo tinha consciência de que a formação doutrinal da comunidade cristã de Tessalônica deixava a desejar; por isso decidiu escrever esta carta, felicitando-os pela sua fidelidade ao Evangelho e aproveitando também para esclarecer algumas dúvidas doutrinais que inquietavam os tessalonicenses ao mesmo tempo que para corrigir alguns aspectos menos exemplares da vida da comunidade. Trata-se do mais antigo texto no Novo testamente, escrito por São Paulo lá pelos  anos 50-51.

Pelas palavras dele percebemos que se trata de uma comunidade numerosa e organizada que vive a fé e resiste unida às perseguições, caracterizando-se pela “fé ativa”, o “amor capaz de sacrifícios” e a “firme esperança”; as três virtudes que descrevem as características fundamentais da vida cristã e que a Igreja chama de “virtudes teologais” por que nos levam a Deus (em grego, “Theos”) e procedem de Deus como dom do Espírito Santo.

A “fé ativa” traduz uma adesão ao Evangelho que não se manifesta só em palavras, mas também em atitudes concretas de conversão e de transformação. O “amor capaz de sacrifícios” dá conta de um amor que não é teórico, mas é efetivo, e se traduz em gestos de entrega, partilha e doação. A “firme esperança” define a confiança inabalável em Deus que nem a hostilidade do mundo, nem as dificuldades da vida conseguem abalar.

O Apóstolo não perde a oportunidade de apontar a necessidade de que cada comunidade e cada batizado saiba acompanhar as palavras pelo testemunho de uma vida coerente (“O Evangelho que pregamos não foi apresentado somente com palavras, mas com poder, com o Espírito Santo e com plena convicção”) porque o que torna a nossa palavra digna de crédito é o testemunho de vida com o qual a acompanhamos. Eis um desafio para os cristãos hoje!


Evangelho: Mateus 22, 15-21

15 Então os fariseus se retiraram, e fizeram um plano para apanhar Jesus em alguma palavra. 16 Mandaram os seus discípulos, junto com alguns partidários de Herodes, para dizerem a Jesus: «Mestre, sabemos que tu és verdadeiro, e que ensinas de fato o caminho de Deus. Tu não dás preferência a ninguém, porque não levas em conta as aparências. 17 Dize-nos, então, o que pensas: É lícito ou não é, pagar imposto a César?» 18 Jesus percebeu a maldade deles, e disse: «Hipócritas! Por que vocês me tentam? 19 Mostrem-me a moeda do imposto.» Levaram então a ele a moeda. 20 E Jesus perguntou: «De quem é a figura e inscrição nesta moeda?» 21 Eles responderam: «É de César.» Então Jesus disse: «Pois deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.»

Diante das críticas abertas de Jesus, os fariseus se unem aos herodianos. Eram dois grupos adversários entre si, mas Jesus e sua doutrina representavam uma ameaça para ambos; por isso preparam com toda astucia uma cilada para desacreditar Jesus e reduzi-lo ao silêncio.

Os fariseus se mostravam a favor do povo judeu, dominado na época pelos romanos aos quais devia pagar tributo; mas, secretamente, procuravam não incomodar César, o imperador romano, a câmbio de receber certos privilégios que os permitiam manter seu status social e fazer parte da classe dominante. Os herodianos eram partidários declarados do rei Herodes, um rei sem apoio popular, a serviço dos romanos e, por isso mesmo, sustentado por eles.

A cilada que prepararam contra Jesus era do tipo político-administrativo com uma pergunta envenenada: “É lícito ou não é, pagar imposto a César?”. Ele não tinha como escapar dessa (pensavam eles). Se respondesse "não tem que pagar", seria declarado subversivo (os herodianos estavam lá para testemunhar isso) e seria condenado pelo poder romano. Se respondesse "sim, deve ser pago", perderia o apoio do povo, escravizado e empobrecido pelos impostos. Aqueles falsos elogios que lhe fizeram (“sabemos que tu és verdadeiro, e que ensinas de fato o caminho de Deus. Tu não dás preferência a ninguém, porque não levas em conta as aparências!”), na verdade, era o que o povo pensava de Jesus, mas, se fosse a favor do imposto, o povo se sentiria defraudado e se voltaria contra Ele.

Mas a resposta de Jesus foi muito mais inteligente do que a pergunta. Primeiro desmascara a falsidade dos elogios deles (“Hipócritas! Por que vocês me tentam?”); depois responde de uma forma totalmente imprevisível: convida os seus interlocutores a mostrar a moeda do imposto e a reconhecerem a imagem gravada na moeda (a imagem de César, o imperador romano) e pergunta de quem é a imagem e inscrição para concluir: «Pois deem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus». O que é que significa esta resposta?

Em primeiro lugar, Jesus sugere que o cidadão não pode nem deve ficar alheio às suas obrigações para com a comunidade em que está integrado. Em qualquer circunstância, ele deve ser um cidadão exemplar e contribuir para o bem comum. A isso, chama-se “dar a César o que é de César”, embora o mais importante é que o homem reconheça a Deus como o seu único Senhor.

Por outro lado, para pagar o imposto, eles usavam as moedas romanas cunhadas com a imagem de César e desta forma aceitavam o domínio romano. Diante disso, Jesus fica à vontade para dizer: «Pois deem a César o que é de César». O ser humano, porém, não tem inscrita em si a imagem de César, mas a imagem de Deus («Façamos o homem à nossa imagem e semelhança... E Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou » - Gênesis 1,26-27), portanto o homem pertence somente a Deus, deve entregar-se a Deus e reconhecê-lo como o seu único Senhor.

Ele não fala em "pagar" o tributo, pois o imperador romano não tinha direito de cobrar nada daquele povo derrotado e submetido pela força depois de uma guerra injusta. Ele fala em "dar" (ou melhor, devolver) a César o que é do César («deem a César o que é de César»). O que era "dele" se não era o dono legítimo daquela terra? Fora as moedas, com as quais dominava a economia do país e mantinha em servidão aquele povo, eram dele, sim, os privilégios concedidos aos fariseus com os quais comprava a colaboração deles em troca da influência que tinham na sociedade judaica.

A resposta de Jesus nada tem de conformista, como alguns interpretam dando a entender que religião e política não se misturam e nada tem a ver entre si. Não é assim. Jesus não diz que Ele não quer se “meter em política”. Muito pelo contrário, quando fala em “dar” a César o que é de César, no fundo, é uma crítica aos fariseus e um pedido implícito de “devolver” os privilégios e renunciar à política suja que eles praticavam, mostrando-se a favor do povo e, ao mesmo tempo, aceitando favores dos romanos para manter-se no poder.

E Jesus não para por aí; com a mesma frase («...e a Deus o que é de Deus») está mostrando discordância com a política dos romanos que dominavam o mundo, primeiro pelas armas, e, depois, comprando a consciência dos líderes dos povos, fazendo deles colaboradores corruptos para governar sem problemas (isso sim: cobrando elevados impostos sem compaixão). Tudo isso é o que devia ser recusado e extirpado ( mais do que “dado”, "devolvido"). Pagar ou não pagar o imposto era o de menos. Era outro o problema. O verdadeiro problema era a corrupção. E eles sabiam disso!


A resposta de Jesus, portanto, é a favor da ética na política; unicamente a favor do ser humano explorado e, por isso, a favor de Deus. Desde esse ponto de vista, "dar a Deus o que é de Deus" significaria renunciar à ambição e à politicagem que gera injustiça e corrupção para, desta forma, dar o verdadeiro culto a Deus que se fundamenta na honestidade e na solidariedade com os mais pobres e oprimidos.

Pode parecer utopia; mas, se não quisermos virar anarquistas e tivermos a convicção de que a sociedade precisa de política para funcionar, a única alternativa que temos como cristãos é usar toda a nossa influência para que a ética faça parte da ação política. Para isso, os políticos não precisam ter fé (como Ciro, da 1ª leitura, não precisou ter fé para ser instrumento de Deus); basta que sejam honestos e trabalhem pelo bem do povo; nunca em benefício próprio. Sem isto, que utilidade poderia ter a política?

Difícil calar aquela pergunta que vem à cabeça: "Devemos pagar impostos sabendo que, em grande parte, são usados para sustentar certos políticos que se enriquecem às custas do povo, sem compromisso com o bem comum?". Para não sermos obrigados a dizer "não", teríamos que dizer: "Usem seu voto para devolver esses políticos às suas casas e coloquem à frente da sociedade pessoas com vocação de serviço e interessadas em promover o bem comum".

Na verdade, Jesus, no evangelho de hoje, não quer discutir a questão do imposto. Ele se preocupa é com o povo: a moeda é «de César», mas o povo é «de Deus». Por isso, lembra-lhes de algo que ninguém tinha perguntado («...deem a Deus o que é de Deus»). Não deem a nenhum “césar” o que é de Deus: a vida de seus filhos. Não há de se sacrificar a vida, a dignidade ou a felicidade das pessoas a nenhum poder, sendo que nenhum poder sacrifica hoje mais vidas e causa mais sofrimento, fome e destruição que a tal de "ditadura de uma economia sem rosto e sem um objetivo verdadeiramente humano", como disse o papa Francisco.

Para o cristão, Deus é a referência fundamental e está sempre em primeiro lugar. Isso não significa que o cristão viva à margem do mundo. O cristão deve ser um cidadão exemplar, que cumpre as suas responsabilidades e que colabora ativamente na construção da sociedade humana. Ele respeita as leis e cumpre pontualmente as suas obrigações tributárias; mas não se escusa de lutar por um mundo melhor e por uma sociedade mais justa e mais fraterna, sabendo que o imposto só é justo quando se reverte em benefício do bem comum. Não podemos permanecer passivos e indiferentes abafando a voz de nossa consciência com a prática religiosa.

Significa isto reconhecer Deus como único Senhor da história e esforçar-se por tornar esta história mais humana, mais fraterna, defendendo sempre a pessoa frente a qualquer Cesar ou poder que queira ocupar em nossas vidas o lugar de Deus. Esta missão está no coração da fé cristã.

+ A frase de Jesus («Dêem a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus») tem sido interpretada de forma interesseira e distorcida ao longo da história. Na realidade, está querendo dizer que devemos colocar Deus no lugar que lhe corresponde e o “César”(qualquer autoridade humana) na sua condição de servidor do ser humano, que é imagem de Deus, o único Senhor. Portanto, quando algum “césar” se comportar como “senhor” e não como servidor, está usurpando um lugar que não lhe corresponde.

+ Hoje que a política está tão desprestigiada, o texto bíblico nos oferece a oportunidade de refletirmos sobre o compromisso cristão na vida pública e o serviço que todos estamos chamados a oferecer em prol do bem comum. Considerando o sistema político atual em que vivemos, a Igreja deve aceitar favores do poder político ou "devolver a César o que é de César" para garantir que está "dando a Deus o que é de Deus"?

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centro de promoÇÃO VOCACIONAL - osa
3º ENCONTRO VOCACIONAL AGOSTINIANO NACIONAL -
10, 11 e 12 de novembro de 2017 EM sÃo paulo (sp)

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