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HOMILIA
eSCRITA POR Pe. C.Madrigal, o.s.a.- ciriacomadrigal@gmail.com

DIA 22 DE ABRIL DE 2018

A imagem do pastor, profundamente enraizada na cultura do povo palestino e na tradição bíblica, volta nesta liturgia sob a forma do Bom Pastor, aquele que conhece e ama desinteressadamente as suas ovelhas e chega ao extremo de dar a vida por elas. É assim que o Senhor Ressuscitado se apresenta (evangelho). Pedro, depois de curar o aleijado, desenvolve esta idéia afirmando que a cura e a Salvação vêm do próprio Cristo, morto e ressuscitado (1ª leitura). João explica que tudo isto é porque Deus nos amou, através de seu Filho, de tal forma que nos tornou filhos e herdeiros do seu Reino (2ª leitura). Este é o conteúdo da Palavra de Deus que iremos meditar.


1ª LEITURA: Atos dos Apóstolos 4,8-12

8 Então Pedro, cheio do Espírito Santo, falou para eles: «Chefes do povo e anciãos! 9 Hoje estamos sendo interrogados em julgamento porque fizemos o bem a um enfermo e pelo modo com que ele foi curado. 10 Pois fiquem sabendo todos vocês, e também todo o povo de Israel: é pelo nome de Jesus Cristo, de Nazaré, - aquele que vocês crucificaram e que Deus ressuscitou dos mortos, - é pelo seu nome, e por nenhum outro, que este homem está curado diante de vocês. 11 Jesus é a pedra que vocês, construtores, rejeitaram, que se tornou a pedra angular. 12 Não existe salvação em nenhum outro, pois debaixo do céu não existe outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos.»

Dando continuidade à 1ª leitura do Domingo anterior, hoje encontramos o apóstolo Pedro explicando às autoridades religiosas com que ”poder” ele acabava de curar um aleijado. Trata-se do mesmo conflito que acontecera na vida pública de Jesus entre duas formas de entender a “autoridade”: uma para libertar, curar e salvar e outra para controlar, dominar e oprimir.

Pedro, “cheio do Espírito Santo”, não foge ao conflito e transforma-se de réu em acusador ao afirmar que é “pelo nome de Jesus Cristo, de Nazaré…. e por nenhum outro, que este homem está curado diante de vocês” e ainda denuncia, sem temor: “aquele que vocês crucificaram e que Deus ressuscitou dos mortos”. Narrando estes fatos, Lucas sugere que é desta forma que os discípulos hão de anunciar Jesus e o seu projeto de salvação, pois receberam a missão de apresentar ao mundo Jesus Cristo, o único Salvador (“não existe outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos”). É o Espírito que os anima nessa missão e que lhes dá a coragem para enfrentar a oposição das forças que oprimem e escravizam os homens.

Desta forma, a Igreja primitiva nasceu com toda força sem preocupar-se em apresentar um testemunho politicamente correto, que não incomodasse os poderes constituídos. Algo bem diferente do verniz cristão com que revestimos a nossa civilização ocidental que não tem impedido a corrida armamentista, os genocídios, os atos bárbaros de terrorismo, as guerras religiosas, o capitalismo selvagem… Os critérios que presidem à construção do mundo estão, demasiadas vezes, longe dos valores do Evangelho. Falta-nos, sem dúvida, o testemunho forte dos primeiros cristãos. Como remediar isso?


2ª LEITURA: 1João 3,1-2

1 Vejam que prova de amor o Pai nos deu: sermos chamados filhos de Deus. E nós de fato o somos! Se o mundo não nos reconhece, é porque também não reconheceu a Deus. 2 Amados, desde agora já somos filhos de Deus, embora ainda não se tenha tornado claro o que vamos ser. Sabemos que quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque nós o veremos como ele é.

O autor começa recordando aos cristãos que Deus os constituiu seus “filhos”. O fundamento desta filiação reside na “prova de amor o Pai nos deu”, sendo que o título de “filhos de Deus” que recebemos não é apenas um nome, pois “de fato o somos!”.

Evidentemente, a condição de “filhos” implica estar em comunhão com Deus e viver de forma coerente com as suas propostas. Os “filhos de Deus” realizam as obras de Deus. Esta condição coloca os cristãos numa posição conflitante (“se o mundo não nos reconhece, é porque também não reconheceu a Deus”). Por isso, o “mundo” irá ignorar ou mesmo perseguir os “filhos de Deus”, recusando o testemunho deles. Nada de novo: o “mundo” também recusou Cristo e a sua proposta de salvação.

No entanto, a pesar de sermos “filhos de Deus” desde o dia do nosso Batismo, “ainda não se (tornou) claro o que vamos ser”; por isso, precisamos continuar o caminho da realização definitiva até o dia em que a nossa fragilidade humana seja definitivamente superada. Então, se manifestará em nós a vida plena e definitiva, o “Homem Novo” plenamente realizado. Nesse dia, estaremos em perfeita comunhão com Deus (“seremos semelhantes a ele, porque nós o veremos como ele é”).

O apóstolo João se refere aos efeitos do Batismo pelo qual nos tornamos filhos de Deus. E isto como prova do amor que Deus Pai tem por nós. A graça de arrancar-nos do poder do mal e admitir-nos à esperança, significa que um dia, estaremos em perfeita comunhão com Ele “porque nós o veremos como ele é”. É esta a mensagem de confiança e otimismo que João nos oferece para sermos capazes de enfrentar as dificuldades que surgem no seguimento de Jesus.


EVANGELHO: João 10,11-18

11 Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. 12 O mercenário, que não é pastor a quem pertencem, e as ovelhas não são suas, quando vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e sai correndo. Então o lobo ataca e dispersa as ovelhas. 13 O mercenário foge porque trabalha só por dinheiro, e não se importa com as ovelhas. 14 Eu sou o bom pastor: conheço minhas ovelhas, e elas me conhecem, 15 assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou a vida pelas ovelhas. 16 Tenho também outras ovelhas que não são deste curral. Também a elas eu devo conduzir; elas ouvirão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor. 17 O Pai me ama, porque eu dou a minha vida para retomá-la de novo. 18 Ninguém tira a minha vida; eu a dou livremente. Tenho poder de dar a vida e tenho poder de retomá-la. Esse é o mandamento que recebi do meu Pai.»

No ambiente geográfico da Palestina, no qual a terra é seca e o pasto escasso, a ovelha é o animal mais apropriado para criação. Ela se alimenta de qualquer pasto, fornece carne e leite para a alimentação e lã para se vestir. É um animal gregário, muito dócil e fácil de ser cuidado. Chega a ser para o pastor como um animal de estimação. A imagem do pastor, atravessando os campos com seu rebanho, fazia parte da cultura daquele povo.

Na linguagem bíblica, todo aquele que cuida, defende, alimenta e tem responsabilidade sobre alguém é identificado com o pastor. Todo aquele que obedece, confia e se deixa conduzir é identificado com a ovelha ou o rebanho de ovelhas. Esta é a imagem que usa o profeta Ezequiel, capítulo 34 para criticar os dirigentes de Israel como maus pastores do seu povo e é a imagem que Jesus usa para manifestar seu amor por todos nós como ovelhas de seu rebanho.

O contexto em que João coloca o “discurso do Bom Pastor” (evangelho de hoje) faz parte da polêmica entre Jesus e os líderes judaicos, principalmente fariseus. Depois de perceber a pressão que colocaram sobre o cego de nascença para que não abraçasse a fé, Jesus denuncia a forma como esses líderes tratam o povo: eles estão papenas interessados em proteger os seus interesses pessoais e usam o povo em benefício próprio; são, pois, “mercenários”. Esta expressão de Jesus é uma denuncia prá valer: Todo poder que não está a serviço do povo é contrario a Deus.

Jesus marca a diferença entre Ele e esses “mercenários” que “trabalham só por dinheiro, e não se importam com as ovelhas”,não arriscam sua vida, para defendê-las dos “lobos” que as ameaçam (os interesses dos poderosos, a opressão, a injustiça, a violência, o ódio do mundo), simplesmente, porque “não são pastores”. Jesus, não é apenas pastor, mas “o Bom Pastor”, como Ele diz:

+ “Conheço minhas ovelhas, e elas me conhecem”. Um conhecimento que não é racional e impessoal, mas que envolve uma relação afetiva de tal forma que trata a cada uma pelo seu nome. Um relacionamento comparável à relação de amor que Ele tem com seu Pai (“assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai”).

+ “Eu dou a vida pelas ovelhas”. Muito mais do que cuidar. Dar a vida por alguém é o mais profundo gesto de amor acima de toda comparação com qualquer outro tipo de pastor. Isto nos introduz dentro do Plano de Deus, pois de tal forma amou o mundo que deu seu próprio Filho pela nossa salvação.

+ “Ninguém tira a minha vida; eu a dou livremente”. A liberdade que o leva a “cumprir a vontade do Pai” não é, propriamente, uma atitude de submissão e sim de aceitação, como João põe de manifesto no relato da Paixão.

A partir destas palavras entendemos a sua função de pastor aberta a todos os povos (“Tenho também outras ovelhas que não são deste curral”)porque o rebanho de Cristo não tem fronteiras. Na verdade, Jesus não montou um curral (a Igreja) onde colocar suas ovelhas, todo ser humano faz parte de seu rebanho (depois de dois mil anos, ainda não conseguimos entender isto). Todo ser humano é convidado a fazer parte deste único rebanho (“haverá um rebanho e um só pastor”). Este rebanho, porém, não pode estar fechado em instituição alguma. Infelizmente, e tal vez por buscar isto, o rebanho esteja, ainda hoje, dividido em várias igrejas em contra da intenção manifesta do Mestre que quer a unidade dos seus discípulos todos.

Partindo da imagem bíblica do pastor, podemos dizer que todos nós estamos chamados a ser pastores desde o momento em que assumimos uma responsabilidade sobre alguém. Os pais, os professores, os sacerdotes, os profissionais da saúde, os governantes tem isso em comum. O importante, porém, não é exercer determinada função. O que faz a diferença é a motivação e o modo como ela é exercida.

Ao confrontar-se com os fariseus, que se consideravam “pastores de Israel” (e, por suposto, melhores do que os outros), Jesus usa a imagem do Bom Pastor em contraposição com a imagem do mau pastor para mostrar-nos que o papel que desempenhamos pode não significar nada se não houver da nossa parte uma verdadeira atitude de doação e de serviço em favor dos outros.

O nosso primeiro passo será sempre estabelecer uma ligação de conhecimento mútuo entre nós (“os pastores”) e aqueles sobre os quais assumimos uma responsabilidade ou que estão sob os nossos cuidados (“as ovelhas”); de forma que possamos dizer: “conheço minhas ovelhas, e elas me conhecem… ”. Um conhecimento que tem que ser “mútuo” para que possa abrir o caminho de uma  verdadeira comunhão.

Depois disto é que poderemos colocar o melhor de nós em tudo o que fazemos com espírito de doação e serviço. É algo que está intimamente ligado à nossa vocação e se mantêm graças ao amor desinteressado por aquilo que fazemos em favor dos outros. Será o exercício da nossa liberdade, superando todo egoísmo e fazendo da nossa vida uma fonte de doação e alegria.

O ideal do Bom Pastor se aplica muito bem aos pais, professores e profissionais que tem alguém sob seus cuidados. Mas, de forma toda especial, aos padres ou sacerdotes.

Sem dúvida, Jesus pode dizer: “Eu sou o bom pastor”. Esta bela imagem de Jesus é um chamado à conversão dirigida, de forma especial, aos padres que, em seu nome, tem a missão de orientar, ensinar e santificar o Povo de Deus.  Ser padre não é uma honraria, não é estar acima ou à margem do rebanho. É caminhar junto com ele, como falava Sto. Agostinho: Para vocês, sou bispo; com vocês, sou cristão.

Jesus entende a atividade dos verdadeiros pastores como os pastores segundo o coração de Deus, de que fala o profeta Ezequiel, capítulo 34, com a missão de anunciar e espalhar o Reino com sua palavra e sua vida; proclamar a misericórdia, deixar transparecer o amor do Pai para com todos (e especialmente para com os mais necessitados), convidar a segui-lo e reunir seus discípulos em comunhão fraterna. Conhecer e deixar-se conhecer, gastar a sua vida curando, alimentando, dignificando, unindo a todos entre si e com o Pai. Em suma, “pastores com o cheiro das ovelhas”, como disse, de forma tão plástica, o papa Francisco.

O pastor que se parece com Jesus, só pensa em suas ovelhas, não «foge» dos problemas, não as «abandona». Ao contrario, está junto delas, as defende, «dá a vida por suas ovelhas», sempre buscando o seu bem.

Ao mesmo tempo, esta imagem é um chamado à comunhão fraterna entre todos. O Bom Pastor «conhece» suas ovelhas e as ovelhas o «conhecem». Só partindo desta proximidade e conhecimento mutuo, desta comunhão de corações, o Bom Pastor partilha sua vida com as ovelhas. É para esta comunhão e conhecimento mutuo que devemos caminhar hoje na Igreja.

Neste dia, celebramos o DIA DE ORAÇÃO PELAS VOCAÇÕES SACERDOTAIS, conscientes da necessidade que temos de contar com número suficiente de padres consagrados ao serviço da Igreja, imitando Jesus o Bom Pastor. Mesmo assim, é a comunidade cristã que realmente importa porque, citando novamente Sto. Agostinho, “Queira Deus que não faltem bons pastores à sua Igreja... na realidade, que não faltem boas ovelhas no seu rebanho, pois é das ovelhas que nascem os pastores.

O que conta é a comunidade cristã. Dentro da comunidade, é a família. Os futuros padres não cairão do céu. Serão filhos de casais cristãos que vivem a espiritualidade conjugal e dedicam parte de seu tempo a assumir e participar das diversas pastorais da Igreja. Normalmente é destas ovelhas que nascem os pastores com verdadeira vocação...!

+ Neste dia de oração, lembramos das palavras do Senhor: «A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso peçam ao dono da colheita que mande trabalhadores para a colheita» (Lucas 10,2). Jesus nos fez este pedido quando, além dos doze apóstolos, chamou e enviou outros setenta e dois discípulos para a missão (Lucas 10,1-16). De fato, a «missão» é a razão de ser da Igreja e a vocação cristã nasce em todos (padres e leigos) dentro de uma experiência de missão. Portanto, escutar e seguir a voz de Cristo, Bom Pastor, deixando-se atrair e conduzir pelo ideal da missão evangelizadora, consagrando a Ele a própria vida, significa deixar que o Espírito Santo nos conduza e nos faça sentir o desejo, a determinação e a alegria de entregar a nossa vida pelo Reino de Deus.

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centro de promoÇÃO VOCACIONAL - osa
1º ENCONTRO VOCACIONAL AGOSTINIANO NACIONAL -
13, 14 E 15 DE julho DE 2018 EM sÃO PAULO (SP)

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