Meditação para o Advento: Santo Agostinho e o Natal de Nosso Senhor Jesus Cristo
“Ele está em uma manjedoura, mas contém o mundo. Ele mama no peito, mas também alimenta os anjos. Ele está envolto em panos, mas nos veste com a imortalidade. Ele não encontrou lugar na pousada, mas fez para si um templo no coração dos crentes.” (S. Agostinho, Sermão 190).
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12.12.2023 - 13:44:00 | 10 minutos de leitura

IntroduçãoEste texto deseja ser, com simplicidade, uma ajuda para reflexão e preparação para a grande Solenidade do nascimento do Senhor. Fundamentado em escritos de Nosso Pai Santo Agostinho, oferece algumas pistas para interiorização e oração pessoal. Não se trata de um estudo teológico, mas um subsídio para rezar, principalmente no tempo do Advento.
1. Advento, tempo de preparaçãoA temporada natalina proporciona uma oportunidade para a consideração reflexiva do Natal sob a inspiração de Nosso Pai Santo Agostinho, cujo legado não apenas filosófico e teológico, mas profundamente espiritual ressoa através dos séculos como um farol de discernimento.
Nesse contexto, propõe-se aqui uma reflexão fundamentada em leituras agostinianas sobre o evento natalício, apontando suas inferências transcendentais e exortações à espiritualidade.
Agostinho de Hipona, em sua abordagem singular, transcendia a mera historicidade do Natal, postulando-o como um chamado à transformação íntima e à renovação espiritual.
Conhecemos muitas exortações do Bispo de Hipona a respeito do grande bem que é a vida interior, e que o encontro com Deus dentro de si mesmo é capaz de produzir uma grande transformação na vida daquele se entrega à busca interior, como aconteceu com ele mesmo: “Eis que habitavas dentro de mim eu te procurava do lado de fora.” (Conf. X, 27,38)
A secularização e também a comercialização da festa natalina nos coloca diante de uma versão que pode facilmente nos deter longe do seu verdadeiro sentido aprisionando-nos na exterioridade.
Mesmo as Comunidades Religiosas ou nossas Igrejas estão à mercê da do esvaziamento do seu sentido mais profundo, estacionando na exterioridade das luzes, dos ritos, dos festejos e etc.
Em sentido oposto a esse, o tempo litúrgico do Advento nos convida com o profeta São João Batista, justamente a preparar e reparar em nós o caminho para que Ele venha a nós: “Preparai o caminho do Senhor, tornai retas suas veredas.” (Mc 1, 3).
A respeito de João, o precursor, Santo Agostinho o apresenta como a devida honra e estima de ser um grande profeta que, no entanto, não é a Luz, mas trazia consigo um poderoso testemunho, como podemos ler na obra Comentário ao Evangelho de João 2,7 de Santo Agostinho:
Porque era Ele um homem no qual se ocultava o próprio Deus, foi enviado antes d'Ele um homem grande, por meio de cujo testemunho fosse Ele reconhecido como mais que um homem. E quem é este? "Houve um homem". E como poderia esse homem dizer a verdade sobre Deus? "Enviado por Deus". Como se chamava? "E seu nome era João". A que veio ele?
"Veio como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por meio dele". Quem era esse que devia dar testemunho da luz? Uma pessoa notável era esse João, de ingente mérito, de grande graça, de elevada altura! Admira-te; admira-te sim, mas como se admira alguém de um monte. O monte estará em trevas se não for revestido pela luz. Portanto, admira-te de João; mas, desde que ouças o que se segue: "Ele não era a luz": não te ocorra que, pensando ser o próprio monte luz, encontres nele naufrágio, e não consolação. De que te deves admirar? Deves admirar-te do monte, como monte que é. Eleva-te, portanto, Aquele que ilumina o monte, que a Ele está elevado para receber primeiro os seus raios e anunciá-lo a teus olhos; portanto: "Ele não era a luz".
Para interiorizar e rezar:
Torna-se oportuno, por meio desta reflexão de Santo Agostinho sobre a pessoa de João Batista, perguntar-nos, no contexto do advento, a respeito de nosso testemunho de Cristo e de como emanamos sua luz.
Pode ser também propício perguntar-nos, concretamente, sobre a forma com que estamos nos preparando interiormente para o grande acontecimento que é o Natal.
2. Celebrar a festa da salvação
O Sermão 185, de nosso Pai Santo Agostinho é bastante confortante pela potência espiritual que carrega consigo. Próprio de um homem apaixonado pela Verdade que encontrou habitada em si, esta leitura pode edificar-nos ajudando-nos à compreender a grandiosidade da libertação e da celebração da “vinda da nossa salvação e redenção.” Por isso, torna-se valiosa a leitura atenta e a meditação das palavras do Santo Doutor:
“Desperta, ó homem: por tua causa Deus se fez homem. Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e sobre ti Cristo resplandecerá (Ef 5,14). Por tua causa, repito, Deus se fez homem.
Estarias morto para sempre, se ele não tivesse nascido no tempo. Jamais te libertarias da carne do pecado, se ele não tivesse assumido uma carne semelhante à do pecado. Estarias condenado a uma eterna miséria, se não fosse a sua misericórdia. Não voltarias à vida, se ele não tivesse vindo ao encontro da tua morte. Terias perecido, se ele não te socorresse. Estarias perdido, se ele não viesse salvar-te.
Celebremos com alegria a vinda da nossa salvação e redenção. Celebremos este dia de festa, em que o grande e eterno Dia, gerado pelo Dia grande e eterno, veio a este nosso dia temporal e tão breve.
Ele se tornou para nós justiça, santificação e libertação, para que, como está escrito, “quem se gloria, glorie-se no Senhor” (1Cor 1,30-31).
A verdade brotará da terra (Sl 84,12), o Cristo que disse: eu sou a verdade (Jo 14,6), nasceu da Virgem. E a justiça olhou do alto do céu (cf. Sl 84,12), porque o homem, crendo naquele que nasceu, é justificado não por si mesmo, mas por Deus.
A verdade brotou da terra porque o Verbo se fez carne (Jo 1,14). E a justiça olhou do alto do céu porque todo o dom precioso e toda a dádiva perfeita vêm do alto (Tg 1,17).
A verdade brotou da terra, isto é, da carne de Maria. E a justiça olhou do alto do céu porque o homem não pode receber coisa alguma, se não lhe for dada do céu (Jo 3,27).
Justificados pela fé, estamos em paz com Deus (Rm 5,1) porque a justiça e a paz se beijaram (cf. Sl 84,11) por intermédio de nosso Senhor Jesus Cristo, pois a verdade brotou da terra. Por ele tivemos acesso, pela fé, a esta graça na qual estamos firmes e nos gloriamos, na esperança da glória de Deus (Rm 5,2). Não disse “de nossa glória”, mas da glória de Deus, porque a justiça não procede de nós, mas olha do alto do céu. Portanto, quem se gloria não se glorie em si mesmo, mas no Senhor.
Eis por que, quando o Senhor nasceu da Virgem, os anjos cantaram: Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade (Lc 2,14 Vulgata).
Como veio a paz à terra senão por ter a verdade brotado da terra, isto é, Cristo ter nascido em carne humana? Ele é a nossa paz: de dois povos fez um só (cf. Ef 2,14), para que fôssemos homens de boa vontade, unidos uns aos outros pelo suave vínculo da caridade.
Alegremo-nos com esta graça, para que nossa glória seja o testemunho da nossa consciência, e assim nos gloriaremos, não em nós mesmos, mas no Senhor. Por isso disse o Salmista: Vós sois a minha glória que levanta a minha cabeça (Sl 3,4). Na verdade, que graça maior Deus poderia nos conceder do que, tendo um único Filho, fazê-lo Filho do homem e reciprocamente fazer os filhos dos homens serem filhos de Deus?
Procurai o mérito, procurai a causa, procurai a justiça; e vede se encontrais outra coisa que não seja a graça de Deus.”
Para interiorizar e rezar:
A apaixonada homilia que lemos acima pode ocasionar em nós algumas perguntas próprias para serem refletidas em nosso coração, entre tantas possíveis, poderíamos nos perguntar, por exemplo:
Qual valor eu dou, de fato, na profundidade do meu coração, à Solenidade do nascimento de Salvador?
Consigo superar o sentido da celebração unicamente por tradição e repetição e deixar-me atingir pelos afetos e pela fé?
Qual é de fato o sentido do Natal que carrego em meu interior?
3. O Verbo se fez carne e habitou entre nós
Certamente o tempo do Advento chama-nos de tantas formas a preparar-nos interiormente para a grande celebração do Verbo encarnado.
Nesse sentido, Nosso Pai Santo Agostinho ilumina-nos para compreender que o Verbo é Ele mesmo, a Luz que nos faz enxergar o grande mistério do amor do Pai. Comentário ao Evangelho de João 2, 16:
De fato, porque "o Verbo Se fez carne e habitou entre nós", pelo Seu próprio nascimento fez um colírio com o qual fossem purificados os olhos do nosso coração e assim pudéssemos ver, por meio de Sua humildade, a Sua majestade. "O Verbo Se fez carne e habitou entre nós". Curou os nossos olhos. E o que se segue? "E nós vimos a Sua glória". Sua glória, ninguém poderia ver, se não fosse curado pela humildade de Sua carne. E por que não podíamos ver? Que a vossa caridade preste, pois, toda a atenção! Vede o que digo: tinha entrado como que poeira nos olhos do homem, tinha entrado terra, tinha ferido o olho, e não podia ver a luz: este olho ferido é ungido. Tinha-se ferido pela terra e terra ali se introduz para que se curasse. Todos os colírios e remédios nada são senão algo da terra. Tu te cegaste pelo pó, pelo pó és curado; cegara-te, pois, a carne; a carne te cura. Tua alma tinha-se tornado carnal, consentindo nos afetos da carne, e os olhos de teu coração ficaram cegos. "O Verbo Se fez carne", esse Médico preparou-te um colírio. E porque Ele veio de tal modo para extinguir, a partir da carne, os vícios da carne e matar a morte com a morte, aconteceu-te que, porque "o Verbo Se fez carne", possas dizer: "E nós vimos a Sua glória". Que glória é essa? A de ter se tornado Ele filho do homem? Aí está Sua humildade, não Sua glória! Mas aonde é conduzido o olhar do homem, curado pela carne? "Nós vimos a Sua glória, como a glória do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade". A respeito da graça e da verdade, trataremos mais abundantemente em outro lugar neste mesmo Evangelho, se o Senhor se dignar conceder-nos. Sejam-nos suficientes, por agora, as coisas que dissemos. Edificai-vos em Cristo, confortai-vos na fé e vigiai nas boas obras: e não vos afasteis do lenho por meio do qual podeis atravessar o mar.
Para interiorizar e rezar:Por fim, esta reflexão nos convida a mais uma vez adentrar em nosso interior e questionar-nos sobre as cegueiras que ainda nos envolvem os olhos, dificultando nosso olhar purificado para o Cristo, menino-Deus a quem voltamos o olhar de nossa fé nesse templo solene.
Quem sabe, possamos pela graça, com Nosso Pai Santo Agostinho exclamar: “Fulguraste e brilhaste e tua luz afugentou a minha cegueira” (Conf. X, 27,38)
Escrito por:
Frade da Província Agostiniana do Brasil, da Ordem de Santo Agostinho, Diretor do Colégio Agostiniano São José em São José do Rio Preto/SP.
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Frade da Província Agostiniana do Brasil,
da Ordem de Santo Agostinho,Diretor do Colégio Agostiniano São Joséem São José do Rio Preto/SP.
Fonte Província Agostiniana do Brasil
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