O ordo amoris
 
 

O ordo amoris

O que significa amar verdadeiramente? Como podemos ordenar nossos afetos para viver uma vida plena e justa? Neste artigo, mergulhamos no conceito do ordo amoris de Santo Agostinho, explorando como o amor bem direcionado pode transformar nossa relação com o mundo e com Deus.

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26.09.2024 - 07:50:00 | 4 minutos de leitura

O ordo amoris

Em um de nossos artigos, tratei da definição de amor como movimento, desejo e peso, tal como Santo Agostinho o havia concebido. Nosso Santo é conhecido como o Doutor da Graça, mas também deveria ser chamado de Doutor do Amor, pois poucos falaram tanto e tão bem sobre o amor quanto ele. O amor sempre se direciona para o objeto do seu desejo, e é justamente aqui que reside o problema, segundo Agostinho, pois nem todos os objetos de amor devem ser amados. Ninguém está dizendo: "Não ameis". Não! Seríeis indolentes, detestáveis, miseráveis, mortos, se não amásseis. "Amai, mas cuidado com o que amais" (Enarrationes in Psalmos 31, II).

Quando o homem se descuida e acaba amando as coisas, aliena-se e perde sua dignidade e imagem, como o filho pródigo. Em outras palavras, ao amar as coisas, o homem se "coisifica". Daí surge a necessidade de amar retamente, e para Agostinho, amar retamente significa ordenar nossos afetos. É preciso colocar ordem nos nossos amores. Agostinho tomou essa ideia do livro Cântico dos Cânticos em uma antiga tradução, que dizia: "Ordenai em mim a caridade."

Ele resumiu sua ética do ordo amoris, do amor ordenado, nas seguintes palavras: "Vive justa e santamente quem é perfeito avaliador das coisas. E quem as estima com exatidão, exatamente mantém seu amor ordenado. Dessa maneira, não ama o que não é digno de amor, nem deixa de amar o que merece ser amado. Nem dá primazia no amor àquilo que deve ser menos amado, nem ama com intensidade o que se deve amar menos ou mais, nem ama menos ou mais o que convém amar de forma idêntica" (De Doctrina Christiana I, 28; De Vera Religione 48,93).

Este conceito do ordo amoris, do amor ordenado em Agostinho, não se entende sem relacioná-lo com a divisão agostiniana entre coisas para usufruir e coisas para usar. Aquele que sabe amar, sabe igualmente discernir as coisas que o fazem feliz ou não. Em um texto clássico, ele esclarece melhor: "Há coisas para usufruir e coisas para usar. Os objetos de usufruto nos fazem felizes. Os objetos de uso nos ajudam na busca da felicidade. Se tratamos de usufruir o que simplesmente deve ser usado, somos retidos em nosso caminhar e, às vezes, nos desviamos do caminho. Agarrados na trama dos bens menores, nos atrasamos ou até mesmo voltamos atrás na busca dos bens maiores. Desfrutar de algo significa possuí-lo por amor de si mesmo. Em troca, usar uma coisa é empenhá-la para lograr o gozo de algo melhor" (De Doctrina Christiana 1,3,3). Nosso problema hoje é a inversão da hierarquia: amamos as coisas e usamos as pessoas.

"Só e exclusivamente", prossegue ele, "devemos amar a Deus e usar as outras coisas." Na linguagem de Agostinho, as coisas do mundo são meios, instrumentos, nunca fins em si mesmos. Nossa miséria, inquietude e infelicidade devem-se à triste confusão entre meios e fins. Amamos as coisas, e até mesmo as pessoas, como se fossem fins em si mesmos, quando, na verdade, são meios para amar a Deus e exercitar a caridade para com Ele. Deus, em última instância, é o objeto do nosso desejo, e quando conseguimos amá-Lo, como recomenda a Escritura, o homem mantém um amor ordenado.

O ordo amoris nos ensina a amar retamente a criação, levando-nos a usar sabiamente as coisas e a aprender a amar unicamente o Autor da criação. Aquele que ama o que não deve, ou o que não é digno de amor, abusa das coisas e assim se priva do melhor. "A avareza não é o vício do ouro, mas sim do homem que ama desordenadamente o ouro, ou seja, abusando das regras da justiça... e nem a luxúria é um vício do corpo, mas sim da alma que ama o prazer corporal ao ponto de esquecer-se das regras da temperança..." Ipse fit in bono malus et miser meliore privatus: "Torna-se mau amando as coisas boas e mísero porque se priva das coisas melhores" (De Civitate Dei 12,8).


Artigo escrito por:
interioridade












Fonte Centro de Estudos Agostinianos
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