A beleza das coisas: reflexo do Criador
Agostinho enfatiza que a beleza reflete o Criador, indicando sua presença nas criaturas. Ele associa a beleza à proporção e harmonia, tanto física quanto moralmente. Para Agostinho, a busca pela beleza moral é fundamental, pois ela conduz à transcendência e reflete a essência divina.
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29.05.2024 - 08:20:00 | 4 minutos de leitura

Agostinho foi um apaixonado pela beleza da criação. Um dos seus primeiros projetos como filósofo, quando tinha cerca de vinte e poucos anos, foi a escrita de uma obra sobre o belo, intitulada "Sobre a beleza e a conveniência", obra infelizmente perdida nos dias de hoje. A beleza para Santo Agostinho, como para todos os antigos e muitos dos modernos, é algo objetivo, universalmente reconhecível, que possui uma forma perfeita, uma harmonia, uma proporção justa. Sem essa ideia de que a beleza é algo objetivo, belo em si mesmo e independente do julgamento, o Renascimento, por exemplo, não teria ocorrido. O objetivo da beleza é mostrar a transcendência das coisas. A beleza está conectada ao bem e à verdade. Hoje, nosso padrão artístico mudou, e mudou para pior. A arte não busca mais o belo em si, que é a razão de ser da arte, mas está subordinada a elementos exteriores, como política, crítica social e quebra de tabus. Mas deixemos de lado a modernidade e voltemos à antiguidade.
Para Santo Agostinho, a beleza é um sinal. E como é próprio de todo sinal indicar algo além de si mesmo, por exemplo, o sinal de fumaça indica fogo; o sinal do anel no dedo indica compromisso; da mesma forma, para o nosso santo, a beleza indica, mostra, aponta para o autor da beleza. Em um clássico texto das "Confissões", Agostinho começa a interrogar o céu, o mar, a terra, o ar sobre como conhecer Deus e alcançá-lo. E disse a todas as coisas que rodeiam as portas da minha carne: ‘Falai-me do meu Deus, já que não sois vós, dizei-me alguma coisa a seu respeito’. E elas exclamaram, com voz forte: ‘Foi ele que nos fez’. Contemplá-las era a minha pergunta e a resposta era a sua beleza. (Conf X, 6, 9). A resposta às perguntas de Agostinho sobre Deus era a beleza. Ela é uma porta que conduz diretamente ao Criador. As criaturas não seriam belas se não fossem o reflexo da suprema beleza, que é Deus.
Mas o que gera atração nos sentidos quando nos relacionamos com as coisas, de modo que as vejamos como belas? Em outras palavras, o que faz com que o belo seja belo? Segundo Agostinho e a tradição clássica, é a proporção, a forma, a graciosidade e a harmonia que tornam belos os objetos aos sentidos. A beleza não se separa do amor, aliás, é sua companheira inseparável. “Será que amamos algo que não é belo? E o que é o belo? E o que é a beleza? O que nos atrai e nos liga às coisas que amamos? Se não tivessem graça e formosura, não seríamos atraídos" (Conf. IV, 13,20). Por isso, segundo a mitologia clássica, Eros, o amor, nasceu no mesmo dia em que se festejava o aniversário de Afrodite, a deusa da beleza.
Mas se os sentidos são atraídos pela beleza física, a alma humana é atraída pela beleza moral, que é o segundo tipo de beleza para Agostinho. Para ele e muitos dos antigos filósofos, o homem é belo quando vive uma vida moralmente reta, harmoniosa, de acordo com as medidas do bem e do verdadeiro. É belo ser justo, íntegro. Essa é a beleza mais brilhante, que deve ser sempre buscada, ensinavam os antigos e também Santo Agostinho. “É a justiça uma certa beleza da alma que faz aos homens formosos, ainda que seus corpos sejam deformados. Invisível é a alma e invisível é também sua beleza” (trin. 8,6,9). Somente tendo isso como pressuposto seremos capazes de entender que Jesus crucificado é belo, que ele é o mais belo entre os filhos dos homens, como diz a Escritura. Que a Virgem Maria é toda beleza.
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Fonte Centro de Estudos Agostinianos
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