A graça de Deus
 
 

A graça de Deus

Descubra a profunda relação entre a graça de Deus e a liberdade humana segundo Santo Agostinho, e entenda por que, sem a graça divina, a cruz de Cristo perderia todo o seu significado. Um debate central para o cristianismo, com implicações que ainda ressoam hoje.

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03.10.2024 - 08:05:00 | 4 minutos de leitura

A graça de Deus

Neste artigo enfrentaremos a difícil questão da graça em Santo Agostinho. Nosso santo é chamado de "doutor da graça" justamente por sua defesa incansável dela. Confesso, no entanto, que o tema é profundo e repleto de detalhes que escapam em um artigo de poucas linhas. Por isso, falarei de modo geral, mas prometo não desampará-los e, futuramente, trazer novas reflexões sobre o tema.

Para entendermos a problemática da graça em Agostinho, que é inseparável da questão da liberdade e da nossa ação no mundo, devemos partir de uma pergunta fundamental: o homem, com suas próprias forças e méritos, pode sozinho ser bom, justo, alcançar a verdade e a felicidade? Se você disser que sim, então surge outra pergunta: por que Cristo morreu na cruz? Ele morreu na cruz justamente para nos reconciliar com Deus, para ser uma ponte entre a humanidade e o Pai, pelo menos segundo a antiga tradição teológica da Igreja. Sua morte significa que o homem, sozinho, não é capaz de lidar com sua história e existência.

Mas, e se eu disser que o homem, com suas próprias forças, pode se salvar? Nesse caso, você precisaria explicar o porquê da morte de Cristo e de toda a sua encarnação. Sua morte teria sido em vão? Além disso, você teria que se opor a toda uma tradição bíblica, reinterpretando-a ou negando-a completamente. Há um fato, e o fato é este: Deus morreu por nós, e sua morte foi gratuita; isso aconteceu porque o homem, por si só, não é capaz de dar conta de sua vida.

Note-se que a discussão a discussão sempre gira em torno de uma questão central: onde colocamos mais ênfase? Na força humana ou na livre iniciativa da graça de Deus? Agostinho foi o defensor da livre iniciativa da graça divina, enquanto muitos de seus adversários acentuavam os méritos e as forças humanas. Os mais aguerridos opositores de Santo Agostinho nesse campo foram os pelagianos. O nome desse movimento se deve a Pelágio, seu iniciador. Pelágio admirava Agostinho, mas a discussão entre os dois começou quando Pelágio estava na casa de alguns amigos, onde se lia e comentava as Confissões de Santo Agostinho. Em certo momento, leu-se uma passagem, que é uma bela oração: "Senhor, concede-me o que me ordenas e depois ordena-me o que quiseres" (Confissões, X, 29). Essa frase despertou a ira de Pelágio, que protestou, declarando-a uma blasfêmia, pois, segundo ele, tirava toda a importância dos méritos e das forças humanas.

Pelágio, sejamos justos, não era uma pessoa má; ao contrário, era um monge muito virtuoso e famoso pelo seu ascetismo. Ele defendia, entre outras coisas, que o homem, com suas próprias forças, poderia praticar o bem. Se Deus ordena fazer as coisas, como, por exemplo, os mandamentos, isso significa que o homem, por suas próprias forças, também pode cumpri-los. Do contrário, Deus não teria dado os mandamentos. Pelágio também negava os efeitos do pecado original. Segundo ele, o pecado de Adão foi apenas um mau exemplo, que prejudicou apenas ele e não toda a humanidade. Ele possuía uma visão muito otimista do homem, talvez excessivamente otimista. Alguns estudiosos classificam seu pensamento como um "soberbo naturalismo", devido à sua ênfase na razão e nas forças humanas.

Do outro lado, está Agostinho, que imediatamente percebe a necessidade de defender a essência do cristianismo, que é a manifestação da graça de Deus na história, independente dos méritos humanos. Para ele, os discursos de Pelágio e dos pelagianos esvaziavam a cruz de Cristo, pois, se o homem pode se justificar sem a graça de Cristo, então, como disse São Paulo, "a morte de Cristo não serve para nada" (cf. Gálatas 2,21). Além disso, as Escrituras são claras quando dizem: "O que tens que não tenhas recebido?" (1 Coríntios 4,7) ou "Sem mim nada podeis fazer" (João 15,5) e "É Deus que opera em vós tanto o querer quanto o realizar" (Filipenses 2,13). Agostinho referia-se aos pelagianos como inimigos da cruz de Cristo.

Ele exemplificava a necessidade da graça em todos os momentos da nossa vida com uma imagem: “assim como o olho, mesmo estando perfeitamente são, não pode ver os objetos sem a ajuda da luz, da mesma forma o homem, mesmo que esteja espiritualmente são, não pode viver bem se não for auxiliado pela luz eterna da justiça” (De natura et gratia 27, 30).


Artigo escrito por:
interioridade












Fonte Centro de Estudos Agostinianos
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