A justiça
 
 

A justiça

A justiça, segundo Agostinho, é essencial para equilibrar as sociedades e evitar a prevalência da lei do mais forte. Ele amplia o conceito clássico de justiça, relacionando-o ao cristianismo e destacando sua ligação com o amor ordenado. Agostinho propõe uma justiça que busca equidade e proporção, mesmo que isso implique em tratar de forma desigual para alcançar a igualdade.

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23.05.2024 - 07:44:00 | 4 minutos de leitura

A justiça

A justiça é uma virtude social centrada no bem comum. Sem ela, as sociedades sucumbiriam e a lei do mais forte prevaleceria. Sabemos que se o peso da balança pender demasiadamente para um só lado, as relações sociais se destroem pela falta de equilíbrio, que é um dos objetivos almejados pela justiça. Por isso, Agostinho questiona em um texto clássico: "Se tirarmos a justiça dos governos, em que se transformam senão em bandos de ladrões em grande escala? E esses bandos, o que são a não ser reinos em miniaturas? São um grupo de homens, regem-se por um chefe, comprometem-se em pacto mútuo, repartem a pilhagem segundo a lei por eles aceita" (Cidade de Deus IV,4). Atual, não? Mas Agostinho não está descrevendo a política nossa de cada dia, especialmente a brasileira, mas sim constatando um dado de fato: sem a justiça que nivela a todos, os reinos se tornam propriedades privadas de poucos.

Comumente, a definição clássica de Justiça centra-se na igualdade. A justiça é a consideração do bem comum por meio do qual se dá a cada um segundo seus merecimentos (83 Questões Diversas, 31,1). Em outro texto da Cidade de Deus, uma de suas obras mais famosas, Agostinho disse: "A justiça, por outra parte, é a virtude que dá a cada um o seu." Usando essa definição clássica de justiça, Agostinho estende-a ao cristianismo e alarga suas possibilidades interpretativas. Com efeito, a justiça não é um simples conceito oriundo do mundo do direito e das leis, mas uma forma de ser no mundo, uma espécie de predisposição para o bem ou a virtude. Em outras palavras, justiça significa, em seu pensamento, a correta forma de relacionar-se consigo mesmo, com o outro e com Deus. Somos justos para com o próximo quando o amamos como a nós mesmos, como recomenda a Escritura. Praticamos a justiça no que se refere a Deus quando retribuímos aquilo que recebemos dele. Agostinho disse: "É uma lei de justiça retribuir o que se recebeu. Como Deus nos deu o que somos, devolvamos-lhe todo nosso ser" (O livre Arbitrio 3,15,42).

Mas, para Agostinho, essa justiça de natureza distributiva, que ensina que devemos dar a todos o que é devido, apesar de correta, não é suficiente para garantir a justiça, dada a complexidade do ser humano. Por isso, ele defende que a justiça verdadeira é aquela que busca o senso de proporção e equidade nas coisas. Aplicando essa ideia de justiça à vida religiosa, diz que o superior de uma casa religiosa não deve distribuir igualmente a todos o alimento e as vestimentas, porque nem todos são da mesma compleição, mas que deve dar a cada um segundo a necessidade (cf. Regra I,3). Agostinho aqui rompe com o critério tradicional de dar a cada um o que lhe corresponde e introduz uma ideia paradoxal: para que haja justiça é preciso desequilibrar. Nessa ótica, justiça é tratar de forma desigual para se alcançar a igualdade.

Uma outra marca do pensamento agostiniano sobre a justiça é a sua relação com o amor, especificamente a relação com a ideia de ordo amoris. Por ordo amoris, Agostinho entende a justa medida que devemos amar as coisas deste mundo. Significa amar de forma ordenada e hierarquizada, não amando mais o que não deve ser amado de menos, nem amando menos o que merece ser amado mais. A perfeita justiça, escreveu, consiste em amar mais o que vale mais e amar menos o que vale menos.


Artigo escrito por:
interioridade












Fonte Centro de Estudos Agostinianos
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