A necessidade da fé
Para Santo Agostinho, a fé, antes de ser a crença na existência de Deus para aqueles que creem, ou a crença na sua não existência para os que não creem, é uma atitude humana fundamental, uma necessidade natural. Ele expressou isso com uma bela imagem: "A fé é tão necessária para a vida quanto a raiz o é para a planta." (Comentário ao Salmo 139,1).
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24.11.2023 - 07:30:00 | 4 minutos de leitura

Comecemos dizendo que a fé no pensamento de Santo Agostinho possui muitas nuances. Portanto, neste breve artigo pretendo falar apenas de uma dimensão da fé: sua necessidade. As outras dimensões serão abordadas numa próxima oportunidade. Para o bispo de Hipona, a fé, antes de ser a crença na existência de Deus para aqueles que creem, ou a crença na sua não existência para os que não creem, é uma atitude humana fundamental, uma necessidade natural. Ele expressou isso com uma bela imagem: “A fé é tão necessária para a vida quanto a raiz o é para a planta.” (Comentário ao Salmo 139,1). Para Agostinho, a fé é uma condição sine qua non para a existência de qualquer relação de caráter social. Sem fé, completa nosso santo, as sociedades humanas não existiriam. Exagero? Não se entendermos sua ideia de fé.
Suas teses sobre a fé se deram em um contexto polêmico. Com efeito, ele tomou posição contra os maniqueus, que eram críticos severos da religião cristã católica. Estes prometiam a verdade por meio da razão, sem o recurso da fé, ao contrário do que era ensinado pelos católicos. Os maniqueus, apoiando-se na crença sobre o inabalável poder da razão, criticavam a religião católica e zombavam dos fiéis católicos, porque estes acreditavam em coisas que não viam. Afirmavam que era uma estupidez crer em coisas que não se poderiam ver.
Santo Agostinho, após sua conversão, escreveu duas obras sobre essa temática contra os maniqueus: “A Fé nas Coisas que não se Veem” e “A Utilidade da Fé”. Nessas obras, Agostinho desmonta as teses maniquéias, chamando como testemunha a própria experiência humana cotidiana. Existem muitíssimas coisas que não vemos, mas que, contudo, cremos. Retoricamente ele pergunta: “Quem não vê a grande perturbação, a espantosa confusão que atinge a sociedade humana se desaparece a fé?”
Santo Agostinho prossegue, porém, desta vez afirmando: “Se não acreditamos no que não vemos, se não admitimos a boa vontade do outro porque o nosso olhar não pode alcançá-la, as relações entre os homens ficam de tal modo perturbadas que a vida em comum torna-se impossível.” (Da Fé nas Coisas que não se vê, 2,4). Em seguida, ele exemplifica sua tese, citando muitos exemplos cotidianos, onde precisamos ter fé e confiar nos outros, como o amor entre cônjuges, a amizade e a relação entre pais e filhos. Ninguém pode ver a amizade que um amigo diz sentir por nós. Aliás, como podemos saber se não fomos trocados na maternidade? Todos damos por certo isso e tantas outras coisas. Imagine a confusão que seria se todos começassem a não mais acreditar em ninguém, porque não conseguem ver o amor do outro, a amizade etc. Há muitos argumentos que poderiam ser trazidos para mostrar que não há absolutamente nada na sociedade humana que não seria prejudicado se tivéssemos decidido acreditar tão somente naquilo que podemos perceber com os sentidos.
Portanto, crer não é um hábito extravagante, exótico ou supersticioso que os crentes de diversas religiões têm em relação a alguma divindade, mas um elemento humano fundamental, diríamos uma atitude natural, para a existência das sociedades humanas, feitas de relações, que se baseiam quase sempre em pactos de fé, em confiança, em dar fé ao outro. Vocês mesmos estão se baseando na minha autoridade, estão acreditando que eu tenho a intenção de dizer-lhes a verdade. Necessariamente vocês precisam, num primeiro momento, dar fé às minhas palavras. Aliás, tudo na nossa vida é um ato de fé; o maior deles é entregar nosso pescoço a um barbeiro desconhecido.
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Fonte Centro de Estudos Agostinianos
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