A peregrinação
 
 

A peregrinação

Santo Agostinho concebe a vida como um caminho. O homem é, por natureza, um peregrino, um viator, um viajante. Peregrinar é o verbo cristão por excelência. Toda a visão de mundo de Santo Agostinho se condensa na ideia da peregrinação. É um daqueles temas transversais que perpassa todas as suas obras.

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06.12.2023 - 09:34:00 | 4 minutos de leitura

A peregrinação

Santo Agostinho concebe a vida como um caminho. O homem é, por natureza, um peregrino, um viator, um viajante. Peregrinar é o verbo cristão por excelência. Toda a visão de mundo de Santo Agostinho se condensa na ideia da peregrinação. É um daqueles temas transversais que perpassa todas as suas obras. Hoje, ao redor do mundo, é comum as pessoas fazerem peregrinação. Como não lembrar de Santiago de Compostela, que atrai inúmeras pessoas e a maioria delas nem compartilha da visão de mundo cristã? Mas, assim como os cristãos, esses peregrinos entendem que a vida é movimento e que a peregrinação é a marca de nossa criaturalidade, de nossa inquietude. Alguns peregrinam para encontrar um sentido, um recomeço, pagar uma promessa; outros para fechar ciclos, cumprir metas ou simplesmente pelo espírito aventureiro.

A metáfora da peregrinação, da viagem, era comum no mundo antigo. Agostinho conhecia alguns exemplos de peregrinos. No mundo pagão, há a saga de Ulisses, que depois de peregrinar por 20 longos anos, consegue finalmente chegar a Ítaca e reencontrar sua amada Penélope. No mundo judaico-cristão, Agostinho tinha como exemplo Abraão, o peregrino na fé, que, escutando o chamado de Deus, inicia sua viagem existencial (cf. Rom 4,2). Ele também conhecia toda a tradição judaica da peregrinação a Jerusalém, testemunhada nos chamados salmos graduais, que os peregrinos cantavam quando iam em romaria à cidade santa.

O homem sente, no mais profundo de si mesmo, uma nostalgia por alguma realidade plena que já experimentara. Nosso peregrinar caracteriza-se pelo desejo da pátria. Passamos a vida, como disse alguém, entre a nostalgia e a esperança. A revelação de Deus na história não é mais do que um sinal de aviso ao homem para que desperte e procure sua verdadeira pátria. Por isso, Deus, ao ver que não éramos capazes de voltar à pátria por nossas forças, desceu até nós para mostrar-nos o caminho. O Caminho se fez caminho. “Nós nos havíamos perdido e, sendo cidadãos de Jerusalém, nos tornamos cidadãos de Babilônia, nos tornamos filhos da confusão: Babilônia significa confusão. Ele desceu aqui à procura de seus cidadãos e tornou-se nosso cidadão. Não conhecíamos aquela cidade, aquele país; e dado que não podíamos chegar lá, ele desceu até seus cidadãos e se fez cidadão, não compartilhando nosso erro, mas tomando nossa cidadania” (sermão 223,7).

Segundo Santo Agostinho, nosso peregrinar não é isento de riscos. O primeiro deles é esquecer-se de sua condição peregrina e querer fixar moradia aqui como se fosse um residente de direito. Agostinho insiste sobre nosso estado de estrangeiros, de exilados expulsos de nossa verdadeira pátria. “Somos cristãos e somos peregrinos. Ninguém se assuste; nossa pátria não está aqui. Aquele que deseja ter aqui sua pátria, perde esta e não consegue aquela.” Um segundo perigo é apaixonar-se pelo caminho e suas belezas e assim perder-se nas coisas. O mundo, diz Agostinho, possui não poucas seduções que atraem a alma, fazendo com que o viajante-peregrino desvie sua meta e caia no canto sedutor das Sereias, uma clara alusão ao episódio de Ulisses e seus companheiros seduzidos pelo belíssimo canto daquelas.

Mas enquanto somos peregrinos, devemos alimentar o desejo da Pátria. Viver é um constante exercício de desejo pelo bem, pela verdade e pela justiça. Aqui neste mundo, nosso ser e nossa essência ainda estão, de alguma forma, velados. Só na pátria se desvelará o que Deus preparou desde o início do mundo para aqueles que o amam. Nossa vida, diz São Paulo, está escondida em Deus. Mas, enquanto ela não se revela, e porque pressa, não é? Que nunca nos falte a sede e a fome da Verdade: “que a minha peregrinação seja marcada pela fome e sede de ti, para que se sacie com a tua presença” (Sermão 158, 7).


Artigo escrito por:
inquietude













Fonte Centro de Estudos Agostinianos
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