A vida e suas tentações
Descubra como as tentações, segundo Agostinho, podem ser oportunidades cruciais para autoconhecimento e crescimento espiritual. Neste artigo, somos convidados a refletir sobre como as tentações podem se revelar como companheiras benéficas inseparáveis da nossa busca por virtude e melhor entendimento de nós mesmos.
03.04.2024 - 08:32:00 | 3 minutos de leitura

Agostinho, lembrando-se de Jó e de suas inúmeras tentações,
pergunta-se: “não será talvez a vida
humana sobre a terra uma ininterrupta tentação?” (Conf. X,28,39). E
Guimarães Rosa, indo na mesma direção, fez um de seus personagens se perguntar:
"Pai, a vida é feita só de traiçoeiros altos e baixos? Não haverá, para
nós, algum tempo de felicidade, de verdadeira segurança?". A vida humana é
uma tentação contínua: nos momentos prósperos tememos perder o que temos; nos
adversos, tememos o sofrimento e a dor que estes podem ocasionar. Não temos
trégua. Estamos em constante atitude de vigilância. Qualquer descuido faz-nos
perder anos de trabalho e luta.
Hoje, porém, não gostaria de evidenciar apenas o aspecto
negativo da tentação. Ao contrário, quero trazer uma interpretação agostiniana
muito interessante, onde ela surge como um elemento inseparável da vida, mas ao
mesmo tempo se apresenta como algo positivo. Sim, a tentação pode ter um lado
positivo. Agostinho afirma que existem duas classes de tentações: uma que nos
engana e outra que nos prova. A primeira é obra do demônio, a segunda é
permitida por Deus (cf. Epístola. 205,2,16).
Mas como podem as tentações ser positivas? Vejamos. Escutamos
frequentemente a frase: crises são oportunidades de crescimento. As tentações,
neste caso, são oportunidades de autoconhecimento. Como poderíamos nos conhecer
se não fôssemos alertados pelas tentações? Elas servem como uma espécie de
controle de qualidade interior. Acompanhemos a lógica argumentativa de
Agostinho: "Com efeito, nossa vida,
enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livre de tentações, pois
é através delas que se realiza nosso progresso, e ninguém pode conhecer-se a si
mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode
combater se não tiver inimigo e tentações" (comentário ao Salmo
60,2-3).
Segundo Santo Agostinho, é necessário que sejamos provados na
escola das tentações e das tribulações, para que não confiemos demasiadamente
em nossas forças, mas, sobretudo, para que nos conheçamos melhor. As tentações
são úteis na medida em que trazem à tona nosso ser, nossas profundidades. Elas
revelam o escondido e trazem à claridade nossa escuridão interior. “O homem, em geral, não se conhece a si
mesmo: não sabe o que pode suportar e o que não pode... A tentação aproxima-se
dele e examina-o, e depois o homem descobre-se a si mesmo; ao passo que, antes,
estava escondido de si mesmo, mesmo que não estivesse escondido do Criador.”
( Epistola 205)
Pedro, diz Agostinho, no episódio da negação de Cristo,
prometera jamais abandonar o Senhor. Essa sua postura claramente mostra que ele
não se conhecia. Mas quando veio a tentação, revelou-lhe a fraqueza e a grande
ignorância que ele tinha de si mesmo. “Então
Pedro, acreditando que ele era o que ainda não era, disse que perseveraria até
a morte em fidelidade ao Senhor. Pedro ignorou suas forças, mas o Senhor as
conhecia.” Por isso, agostinianamente falando, aproveitemos as tentações
para nos conhecermos melhor, não esquecendo jamais do que diz a palavra de
Deus, que tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, inclusive as tentações.
"Bons marinheiros", disse o pagão Epicuro,
"devem sua reputação às tempestades".
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Agostinho, lembrando-se de Jó e de suas inúmeras tentações, pergunta-se: “não será talvez a vida humana sobre a terra uma ininterrupta tentação?” (Conf. X,28,39). E Guimarães Rosa, indo na mesma direção, fez um de seus personagens se perguntar: "Pai, a vida é feita só de traiçoeiros altos e baixos? Não haverá, para nós, algum tempo de felicidade, de verdadeira segurança?". A vida humana é uma tentação contínua: nos momentos prósperos tememos perder o que temos; nos adversos, tememos o sofrimento e a dor que estes podem ocasionar. Não temos trégua. Estamos em constante atitude de vigilância. Qualquer descuido faz-nos perder anos de trabalho e luta.
Hoje, porém, não gostaria de evidenciar apenas o aspecto negativo da tentação. Ao contrário, quero trazer uma interpretação agostiniana muito interessante, onde ela surge como um elemento inseparável da vida, mas ao mesmo tempo se apresenta como algo positivo. Sim, a tentação pode ter um lado positivo. Agostinho afirma que existem duas classes de tentações: uma que nos engana e outra que nos prova. A primeira é obra do demônio, a segunda é permitida por Deus (cf. Epístola. 205,2,16).
Mas como podem as tentações ser positivas? Vejamos. Escutamos frequentemente a frase: crises são oportunidades de crescimento. As tentações, neste caso, são oportunidades de autoconhecimento. Como poderíamos nos conhecer se não fôssemos alertados pelas tentações? Elas servem como uma espécie de controle de qualidade interior. Acompanhemos a lógica argumentativa de Agostinho: "Com efeito, nossa vida, enquanto somos peregrinos neste mundo, não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso, e ninguém pode conhecer-se a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações" (comentário ao Salmo 60,2-3).
Segundo Santo Agostinho, é necessário que sejamos provados na escola das tentações e das tribulações, para que não confiemos demasiadamente em nossas forças, mas, sobretudo, para que nos conheçamos melhor. As tentações são úteis na medida em que trazem à tona nosso ser, nossas profundidades. Elas revelam o escondido e trazem à claridade nossa escuridão interior. “O homem, em geral, não se conhece a si mesmo: não sabe o que pode suportar e o que não pode... A tentação aproxima-se dele e examina-o, e depois o homem descobre-se a si mesmo; ao passo que, antes, estava escondido de si mesmo, mesmo que não estivesse escondido do Criador.” ( Epistola 205)
Pedro, diz Agostinho, no episódio da negação de Cristo, prometera jamais abandonar o Senhor. Essa sua postura claramente mostra que ele não se conhecia. Mas quando veio a tentação, revelou-lhe a fraqueza e a grande ignorância que ele tinha de si mesmo. “Então Pedro, acreditando que ele era o que ainda não era, disse que perseveraria até a morte em fidelidade ao Senhor. Pedro ignorou suas forças, mas o Senhor as conhecia.” Por isso, agostinianamente falando, aproveitemos as tentações para nos conhecermos melhor, não esquecendo jamais do que diz a palavra de Deus, que tudo concorre para o bem dos que amam a Deus, inclusive as tentações.
"Bons marinheiros", disse o pagão Epicuro, "devem sua reputação às tempestades".

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