Escuta, humildade e unidade: Ressonâncias da homilia do Papa Leão XIV
Pedro continua nos falando por Leão XIV.
Província em Foco
03.09.2025 - 09:14:00 | 5 minutos de leitura

A homilia de Sua Santidade Leão XIV pronunciada à Missa votiva ao Espírito Santo na Basílica de Santo Agostinho, que abre os trabalhos do 188º Capítulo Geral Ordinário da Ordem de Santo Agostinho, foi marcadamente pneumatológica e eclesiológica. As primeiras palavras do Santo Padre nos lembram o evento salvífico do Pentecostes. Memória hoje, na vida da Igreja de Cristo – e, de forma singular, – à celebração do 188º Capítulo da Ordem de Santo Agostinho. Destacou Leão XIV: “verdadeiramente a Terceira Pessoa divina torna-se o protagonista dos dias que virão”.
O Bispo de Roma sublinhou a ininterrupta ação do Espírito Santo na esteira da Ordem de Santo Agostinho: “O Espírito Santo fala, hoje como no passado. O faz penetralia cordis; (do interior dos corações) e continua o papa Leão com o indelével acento agostiniano da vida comum: “e através dos irmãos e das circunstâncias da vida”. O primeiro tema da homilia do Romano Pontífice foi o da mútua escuta a Deus e aos irmãos: “[...] é importante que o clima do Capítulo, em harmonia com a tradição secular da Igreja, seja um clima de escuta, escuta de Deus, escuta dos outros”.
A partir da explanação do papa, recordamos o primeiro capítulo da Regra. Santo Agostinho evidencia que o motor da vida comunitária agostiniana é o amor a Deus e ao próximo: “Antes de tudo, irmãos caríssimos, amai a Deus e depois ao próximo, pois estes são os principais mandamentos que nos foram dados” (Regra 1). Essa busca só terá frutos se os membros da comunidade tiverem um só coração em Deus: Cor unum in Deum, ou seja, “uma só alma e um só coração orientados para Deus” (Regra 3).
Leão XIV – ainda evocando Nosso Pai Santo Agostinho – comentando o acontecimento do Pentecostes, fez uma importante referência ao Bispo de Hipona com uma citação do Sermão 269, 1: “Em um primeiro momento cada fiel falou todas as línguas, agora, juntos dos que creem, fala em todas as línguas. Porque também, agora, todas as línguas são nossas, visto que somos membros do corpo que fala”. Constata-se na reflexão do Santo Padre uma afirmação da universalidade; da catolicidade e, na qual, a Ordem Agostiniana encontra a sua razão de ser. Porque a Ordem, sendo filha da Igreja, vive a tensão da unidade-diversidade, acento paulino-agostiniano. Destarte, completa o papa Leão: “Caríssimos, aqui, juntos, vós sois membro do Corpo de Cristo que fala todas as línguas”.
Nessa perspectiva, a vida religiosa consagrada agostiniana é chamada a ser sinal de comunhão. Agostinho “sabe que esse projeto de viver a comunhão está enraizado no Deus que, basicamente, é relação, é comunhão trinitária” (FERNÁNDEZ, 2010, p. 08). Por isso, as Constituições da Ordem de Santo Agostinho enfatizam que “o fundamento da vida agostiniana é a vida comum, doando-se uns aos outros, [...] se manifesta no mistério trinitário e eclesial nas suas vidas” (Const. nº6).
O segundo tema trazido pelo papa foi o da humildade. Santo Agostinho em muitos sermões insiste nesta virtude cristã. Por exemplo, no Sermão 23 escreve: “Sigamos os caminhos que ele próprio indicou, muito em especial a via da humildade, via que ele mesmo fez por nós”. O papa Leão associando o tema do Espírito Santo à humildade, lembra aos capitulares e a todos nós: “Que ninguém ache que tem todas as respostas”. Leão XIV derroca toda autorreferência. E, na abertura ao Espírito Santo afirma: “Cada um compartilhe abertamente o que tem. Que todos acolham com fé o que o Senhor inspira”; deixando em evidência a primazia de Deus que sempre supera os entendimentos dos homens, parafraseando o profeta Isaías: “tão alto são seus caminhos sobre os nossos caminhos e seus pensamentos sobre os nossos pensamentos”.
O terceiro aspecto da homilia foi acerca da unidade. O papa – com outras palavras – afirmou que ela é um dom gratuito de Deus. Não obstante, mostra a participação de todos, como batizados, de serem instrumentos para esse fim. Leão XIV, servindo-se da primeira leitura da Missa, exprimiu: “a cada um é dada a manifestação do Espírito para o bem comum” (I Cor 12, 7). Na proximidade dos trabalhos capitulares papa Leão evidenciou que essa palavra de São Paulo se cumpria entre os irmãos agostinianos: “como [...] o corpo é um só e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora sendo muitos, são um só corpo, assim também é Cristo”.
A unidade é uma resposta urgente para a Igreja e para o mundo. Diante dos desafios da sociedade contemporânea, caracterizada pelos conflitos internacionais, pelo individualismo e pela cultura do descarte ressoa, em todos os continentes, o grito pela paz e pela comunhão. Nesse cenário, a vida consagrada agostiniana deve ser sinal profético de comunhão.
O pontificado do papa Francisco fez inúmeras críticas à alguns aspectos da sociedade atual. Para ele “a cultura do descarte virou um dos males mais graves da sociedade atual; apoiando-se na idolatria do dinheiro, deixa de lado o ser humano.” (EG, n.53). No ambiente eclesial, os desafios se encontram na “proliferação de novos movimentos religiosos, alguns tendentes ao fundamentalismo e outros que parecem propor uma espiritualidade sem Deus” (EG n. 63).
Em suma, a homilia do papa Leão XIV na abertura do 188º Capítulo Geral Ordinário da Ordem de Santo Agostinho, mostra-nos, que é a partir da centralidade de Jesus Cristo na força do Espírito Santo que a escuta, a humildade e a unidade, tornam-se dons para todo o apostolado na Ordem, e, por conseguinte, um serviço à Igreja como um dos pilares do carisma agostiniano.
Por: Frei André Fernandes Oliveira, OSA
Frei Ricardo Reis, OSA
Frei Ricardo Reis, OSA
Fonte Província Agostiniana do Brasil
Imagem Province of Santo Niño de Cebu, Philippines - Photos by Glens
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