O amor, a razão de tudo
A mais poderosa das forças presentes no ser humano é o amor. Agostinho, como profundo conhecedor da psicologia humana, não deixou de notar que agimos, no fundo, mesmo que não pareça, sempre por motivações de natureza afetiva.
Artigos
08.11.2023 - 10:36:00 | 4 minutos de leitura

A mais poderosa das forças presentes no ser humano é o amor. Agostinho, como profundo conhecedor da psicologia humana, não deixou de notar que agimos, no fundo, mesmo que não pareça, sempre por motivações de natureza afetiva. Escreveu: "O amor é a força motriz do mundo humano, a razão que governa os homens e os faz dançar ao som de sua música" (A Ordem 2,5). Por isso, na linguagem agostiniana, falar do homem, de sua natureza e de seu destino em última instância significa falar de seus amores. “Cada homem é o que ama” (Oitenta e três questões diversas 35). Porque cada um é o que ama, o homem não pode viver senão de acordo com esse amor: “vive-se segundo aquilo que ama” (A trindade XIII,20,26).
Mas o que é o amor para Agostinho? O termo possui muitas acepções. Neste breve artigo podcast, trato do amor como um movimento geral, falo do amor como desejo de algo. É o amor que dá movimento e direção. Desejamos e somos movidos pelo objeto desse desejo. Em outras palavras, vamos para onde nos levam nossos afetos. O bispo de Hipona exemplifica: “Mostra um ramo verde para a ovelha, e a atrairás. Mostra um punhado de doces para uma criança e a atrairá. Responderão correndo, são atraídos pelo amor, são atraídos sem coerção física, são atraídos pelos laços do coração" (Com. ao Evangelho São João 26, 6,5).
O amor é uma espécie de força gravitacional, por meio da qual o homem é levado, arrastado. Por isso, ele dirá em outras ocasiões, que é preciso prestar atenção ao que amamos. O amor é uma espécie de peso do coração. Assim diz Agostinho: "Os objetos materiais são trazidos para baixo por sua gravidade e para cima por sua falta de peso. O peso do amor coloca a cada um no lugar que lhe corresponde por natureza. Do mesmo modo, o homem é levado para cima ou para baixo dependendo da natureza do seu amor" (Cidade de Deus XI, 28).
Mas qual é o peso do amor, qual é sua tendência natural segundo Agostinho? É a busca pela completude, pela satisfação, pelo gozo, que só termina quando a alma se sacia encontrando-se com o amado, que é Deus. Talvez para nós soe estranho, mas não o era para os místicos. Basta lermos São João da Cruz, Santa Teresa. Interessante também, meus caros, é a relação natural entre o amor e a inquietude. Tudo o que não encontrou no universo o seu lugar natural continua em constante movimento, em atitude de constante inquietude e intranquilidade. Enquanto não encontrarmos o objeto que sacie completamente nosso amor, seremos inquietos. “Todo corpo por seu peso tende para o lugar que lhe é próprio. [...] O que não está em seu lugar está inquieto; se o colocamos no seu lugar, descansa. Meu amor é peso. Por ele sou levado aonde quer que eu vá” (Confissões XIII, 9).
Mas o amor como movimento, peso, desejo possui ainda outra característica importantíssima: ele fornece identidade àquele que ama. “É tão forte o amor que transforma o amante na imagem do amado” (Oitenta e três questões diversas 35). Diante dessa constatação, Agostinho, em outras obras, nos faz um alerta sobre os objetos do nosso amor, pois nos transformaremos naquilo que amamos. Por isso, se quisermos conhecer o que é o homem, não devemos perguntar pelas coisas que estão na superfície, mas investigar quais são os objetos do seu amor. “Queres saber que tipo de pessoa és? Põe à prova teu amor. Amas as coisas terrenas? És terra. Amas a Deus: não tenhas medo de dizê-lo: És Deus” (Comentário à Epístola de São João, 2,2,14).
Artigo escrito por:
Artigo escrito por:

Fonte Centro de Estudos Agostinianos
Mais em Artigos
Pastores de si mesmosNo terceiro texto da série sobre o Sermão 46 de Santo Agostinho, refletimos sobre o verdadeiro pastor: aquele que se doa, e não o que se serve das ...01.07.2025 | 4 minutos de leitura
Você já se perguntou se é lícito viver do Evangelho?Santo Agostinho nos provoca com palavras firmes e cheias de compaixão: o pastor não deve apenas se vestir com a lã, mas cuidar da ovelha. Se você ...28.05.2025 | 3 minutos de leitura
Toda a nossa esperança está em Cristo: reflexões de Santo Agostinho sobre o que significa ser pastorVivemos tempos em que muitos desejam o título, mas poucos abraçam o serviço. Em meio às crises e às desilusões, Agostinho se volta às Escritura...19.05.2025 | 6 minutos de leitura
O dever do Pastor segundo Santo Agostinho: distribuir o alimento do Senhor para os fiéis“No Sermão 101, Santo Agostinho reflete sobre o papel do pastor como dispensador da Palavra de Deus, destacando a humildade, a fidelidade e a graç...09.12.2024 | 5 minutos de leitura
A parábola do filho pródigo à luz de Santo AgostinhoA partir do Sermão 112A, este artigo analisa a parábola do filho pródigo sob a perspectiva de Santo Agostinho, destacando temas como afastamento es...04.12.2024 | 6 minutos de leitura
A honestidade para consigo e com os outrosEntenda como a honestidade consigo mesmo e com os outros é essencial para o crescimento pessoal, segundo Santo Agostinho. Aprenda a refletir sobre su...25.11.2024 | 3 minutos de leitura
Como Maria gera Cristo em nósNeste artigo, mergulhamos no pensamento de Santo Agostinho sobre Maria, destacando sua importância na Igreja e o chamado para que, como ela, possamos...21.11.2024 | 3 minutos de leitura
A oração: nossa forçaNeste artigo, analisamos a significativa relação entre oração e desejo segundo Santo Agostinho, revelando como a oração é a expressão do ansei...01.11.2024 | 4 minutos de leitura
A esperança: nosso consolo na peregrinaçãoNeste artigo, exploramos como Santo Agostinho aborda a virtude teologal da esperança, mostrando-a como o consolo essencial para nossa peregrinação ...10.10.2024 | 4 minutos de leitura
A graça de DeusDescubra a profunda relação entre a graça de Deus e a liberdade humana segundo Santo Agostinho, e entenda por que, sem a graça divina, a cruz de C...03.10.2024 | 4 minutos de leitura