O desejo de Deus
Agostinho escreveu muito sobre os desejos que movem o coração humano. Nosso coração é como um rio caudaloso constantemente alimentado pelas vertentes dos desejos. Dentre estes, aquele que a alma humana mais suspira é o desejo pelo seu Criador. Agostinho e todos os místicos de todos os tempos desejam conhecer a fonte dos seus desejos.
Artigos
31.10.2023 - 08:14:00 | 3 minutos de leitura

Agostinho escreveu muito sobre os desejos que movem o coração humano. Nosso coração é como um rio caudaloso constantemente alimentado pelas vertentes dos desejos. Dentre estes, aquele que a alma humana mais suspira é o desejo pelo seu Criador. Agostinho e todos os místicos de todos os tempos desejam conhecer a fonte dos seus desejos. Nossa criaturalidade grita ansiando pelo encontro com o Criador. Esta ânsia humana pelo Criador foi traduzida de maneira única na oração dos Salmos. De fato, encontramos nos Salmos inúmeras referências ao orante que clama pelo seu Deus: onde está a Tua face, é a tua face que eu procuro (cf. Salmo 27,8), como o cervo sedento pelas águas assim Te deseja a minha alma (cf. Salmo 42,1).
O desejo surge, diz Agostinho, porque somos peregrinos e ausentes da nossa plenitude existencial. Estamos a caminho, não na morada. Somos hóspedes, não habitantes definitivos. Por isso, devemos peregrinar pelo deserto deste mundo e temos sede. Esta sede só termina quando o riacho dos nossos desejos se encontrar com o mar de Deus. Mas como todos os místicos, Agostinho quer ver Deus aqui, quer ter uma experiência de contato com Ele, não quer ver somente pela fé, mas quer contemplar com a visão. Por isso afirma: “Onde está o teu Deus?” Procuro também eu o meu Deus, a fim de verificar se é possível não só acreditar, mas igualmente ver alguma coisa. Pois vejo as coisas que meu Deus criou, mas não vejo meu Deus que as fez” (Com. aos Salmos 42,7).
Mas, então, o que fazer para encontrar o tão desejado Criador das criaturas ou na linguagem do Cântico dos Cânticos, o Amado? Agostinho, responde: “Olho para a terra; ela foi criada. Grande é sua beleza, mas teve um artífice. Admirável o milagre da germinação das sementes, mas tudo isto teve um criador. Mostro a grandeza do mar e sua extensão, com espanto e admiração, e busco seu artífice. Contemplo o céu e a beleza das estrelas; admiro o esplendor do sol, suficiente para iluminar o dia, e a lua que alivia as trevas noturnas. Tudo isso é admirável, louvável, estupendo. E não se acham só na terra, mas também no céu. No entanto, ainda não se estanca a minha sede. Louvo tudo isso que admiro, mas tenho sede daquele que o fez.” As criaturas não são a resposta e jamais poderão matar a sede da criatura. Além disso, sua beleza pode nos seduzir e fazer-nos perder, como ele menciona nas Confissões.
Várias vezes ele se serve de uma linguagem metafórica para ilustrar este nosso desejo: fala que somos como mendigos de Deus, viúvas de Cristo, cervos sedentos. Mas enquanto estamos aqui, caminhamos pela fé, não pela visão. Contemplar Deus e matar nossa sede dele não é possível, a menos que comecemos a beber da caridade. Disse ele: “Se não queres morrer de sede, bebe a caridade. É a fonte que Deus quis colocar aqui para que não morramos no caminho. Nela beberemos com mais abundância quando chegarmos à pátria” (Com. à 1ª Carta de João 7,11). Pela caridade, o homem contempla aqui uma imagem de Deus, pois segundo a Carta de São João, Deus é amor.
Artigo escrito por:
Artigo escrito por:

Fonte Centro de Estudos Agostinianos
Mais em Artigos
Pastores de si mesmosNo terceiro texto da série sobre o Sermão 46 de Santo Agostinho, refletimos sobre o verdadeiro pastor: aquele que se doa, e não o que se serve das ...01.07.2025 | 4 minutos de leitura
Você já se perguntou se é lícito viver do Evangelho?Santo Agostinho nos provoca com palavras firmes e cheias de compaixão: o pastor não deve apenas se vestir com a lã, mas cuidar da ovelha. Se você ...28.05.2025 | 3 minutos de leitura
Toda a nossa esperança está em Cristo: reflexões de Santo Agostinho sobre o que significa ser pastorVivemos tempos em que muitos desejam o título, mas poucos abraçam o serviço. Em meio às crises e às desilusões, Agostinho se volta às Escritura...19.05.2025 | 6 minutos de leitura
O dever do Pastor segundo Santo Agostinho: distribuir o alimento do Senhor para os fiéis“No Sermão 101, Santo Agostinho reflete sobre o papel do pastor como dispensador da Palavra de Deus, destacando a humildade, a fidelidade e a graç...09.12.2024 | 5 minutos de leitura
A parábola do filho pródigo à luz de Santo AgostinhoA partir do Sermão 112A, este artigo analisa a parábola do filho pródigo sob a perspectiva de Santo Agostinho, destacando temas como afastamento es...04.12.2024 | 6 minutos de leitura
A honestidade para consigo e com os outrosEntenda como a honestidade consigo mesmo e com os outros é essencial para o crescimento pessoal, segundo Santo Agostinho. Aprenda a refletir sobre su...25.11.2024 | 3 minutos de leitura
Como Maria gera Cristo em nósNeste artigo, mergulhamos no pensamento de Santo Agostinho sobre Maria, destacando sua importância na Igreja e o chamado para que, como ela, possamos...21.11.2024 | 3 minutos de leitura
A oração: nossa forçaNeste artigo, analisamos a significativa relação entre oração e desejo segundo Santo Agostinho, revelando como a oração é a expressão do ansei...01.11.2024 | 4 minutos de leitura
A esperança: nosso consolo na peregrinaçãoNeste artigo, exploramos como Santo Agostinho aborda a virtude teologal da esperança, mostrando-a como o consolo essencial para nossa peregrinação ...10.10.2024 | 4 minutos de leitura
A graça de DeusDescubra a profunda relação entre a graça de Deus e a liberdade humana segundo Santo Agostinho, e entenda por que, sem a graça divina, a cruz de C...03.10.2024 | 4 minutos de leitura