O pecado como imitação perversa de Deus
 
 

O pecado como imitação perversa de Deus

Você já se perguntou por que o pecado parece ser uma constante na história humana? Santo Agostinho oferece uma perspectiva profunda sobre essa questão, argumentando que o pecado não é apenas um fenômeno histórico, mas uma imitação perversa de Deus. Neste artigo, mergulhamos na análise de Agostinho sobre a origem e a natureza do pecado, explorando como a tentativa de imitar a onipotência divina leva a um ciclo de rebelião e transgressão.

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18.09.2024 - 08:40:00 | 4 minutos de leitura

O pecado como imitação perversa de Deus

Para Santo Agostinho, o pecado é um dado empírico, ou seja, deduzível a partir da experiência de nós mesmos e do mundo. A própria história humana, como ele a analisa, é profundamente marcada pelo pecado, cujas guerras, desordens, maldades e corrupções são amostras do seu domínio. No entanto, segundo Agostinho, a resposta para a existência desses pecados não deve ser procurada na história, que é apenas um palco onde essas forças atuam, mas em uma batalha travada antes do tempo, cujas consequências nefastas influenciam toda a humanidade.

Agostinho tenta entender as motivações da rebelião originária das primeiras criaturas racionais, encontrando uma solução em Gênesis 3,1-22, onde a serpente, símbolo do mal, tenta os primeiros pais com a tentadora promessa: “Certamente não morrereis. Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes, se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal” (Gn 3,4-5).

A promessa de “ser como Deus” levou os primeiros pais a querer igualar-se a Deus, a imitá-lo. Um texto do De Libero Arbitrio ajuda a entender melhor a dinâmica da alma: ao amar mais a si mesma e seu poder, a alma tenta usurpar o lugar de Deus. Se, por assim dizer, ela se compraz em si mesma, como uma imitação perversa de Deus, procurando encontrar gozo na própria independência, então se torna menor quanto mais deseja engrandecer-se. Esse é o sentido das palavras: “O orgulho é o começo de todo pecado” (Eclo 10,13) e “O início do orgulho humano é afastar-se de Deus” (Eclo 10,12) (Agostinho, lib. arb. 3,25,76). Portanto, segundo Agostinho, o pecador, por meio do seu pecado, deseja imitar pervertidamente Deus, buscando possuir ou ser algo que só Deus pode ser ou possuir. Agostinho, em um sermão ao povo, reafirma essa ideia com uma sentença lapidar: “O homem foi feito, quis ser Deus” (Agostinho, serm. 340A,1).

Não só os primeiros pais, Adão e Eva, tentaram imitar a onipotência divina, mas também Agostinho, no II livro das Confissões, menciona o famoso roubo das peras como uma “tenebrosa imitação da onipotência” (Conf. 2,6,14). Enquanto os criminosos agem buscando benefícios e compensações, Agostinho, movido apenas pelo desejo do crime, provou dos frutos roubados apenas o gosto do pecado. O que ele desejou foi o crime, a rebelião e a transgressão. Em última análise, desejou a imitação de uma onipotência que só Deus possui: “O que, então, eu amei naquele roubo e no que eu imitei, viciosamente e perversamente, o meu Senhor?” (Agostinho, conf. 2,6,14).

Segundo Agostinho, seu malfadado roubo foi uma simulação, uma imitação de Deus. Aliás, todos os pecadores o imitam na medida em que, pecando, buscam alguma coisa: a plenitude, a felicidade, a segurança, a paz, a alegria, o prazer, etc. O que a criatura consegue com seus desejos e atos é somente mostrar sua dependência ontológica do Criador. Cada movimento da criatura racional, ainda que não seja consciente, é um movimento em direção ao Criador. Por isso, Agostinho diz: “Mas mesmo imitando-te, à sua maneira, eles provam que tu és o Criador do universo e, portanto, não é possível desviar-se de ti de forma alguma” (Agostinho, conf. 2,6,14). Agostinho exemplifica sua teoria analisando uma lista de pecados: soberba, ambição, ignavia, luxúria, avareza, ira, lascívia, e também as chamadas paixões da alma: curiosidade, temor, tristeza, ignorância. Quem comete todos esses pecados, diz Agostinho, nada mais faz do que imitar de forma perversa as qualidades e virtudes que só Deus possui em plenitude (cf. conf. 2,6,13).


Artigo escrito por:
interioridade












Fonte Centro de Estudos Agostinianos
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