Para que servem os milagres realizados por Deus?
 
 

Para que servem os milagres realizados por Deus?

Agostinho destaca que os milagres de Cristo, embora importantes, não são tão significativos quanto a graça divina manifestada diariamente na ordinariedade da vida, ressaltando que o maior milagre é a própria existência.

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16.05.2024 - 08:38:00 | 5 minutos de leitura

Para que servem os milagres realizados por Deus?

Agostinho, em sua grande obra de comentário ao Evangelho de São João, sente-se impelido a falar de alguns milagres de Cristo. Nesta obra, ele analisa 3 milagres importantes no Evangelho de João: o primeiro, o milagre da transformação da água em vinho nas bodas de Caná (cf. João 2,1-11); o segundo, na piscina de Betsaida (cf. João 5,1-9); e o terceiro, a multiplicação dos pães (cf. João 6,1-14). Mas o que me chamou a atenção, e por isso gostaria de partilhar com vocês, é a insistência de Agostinho em uma ideia: os milagres evangélicos, apesar de importantes, não são as coisas mais importantes que Deus fez em prol da humanidade.

Agostinho se pergunta: por que Cristo operou os milagres? A resposta é simples: para mostrar aos homens que ele era Deus. Os homens não poderiam intuir/perceber que ele era Deus sem os milagres. Os milagres têm, portanto, uma função de revelar a identidade divina de Jesus, revelando que ele não é um simples homem, mas o Verbo eterno do Pai. Em outras palavras, a principal função do milagre é chamar a atenção da mente humana, para que esta se dirija para qualquer coisa além do milagre mesmo. O milagre, acontecendo de forma visível, deve nos levar até as coisas invisíveis. A ideia é que os milagres precisam despertar em nós o senso do maravilhamento, do estupor, da admiração em relação a Cristo. Portanto, os milagres não são importantes em si mesmos, mas sua importância reside na capacidade de impulsionar a mente humana, conduzindo as pessoas à fé em Jesus.

Por isso, Agostinho dirá que os milagres não visam fornecer salvação corporal, mas ajuda espiritual para que o homem possa ver além. "Como assim Jesus não operou milagres para salvar as pessoas?" Isso talvez soe estranho, mas Agostinho nos ajuda a refletir, dizendo que existiam milhares de doentes e milhares de mortos no tempo de Jesus, mas o Senhor só salvou alguns e ressuscitou apenas Lázaro. Agostinho se pergunta: por que afinal não salvou a todos? Porque Jesus operava os milagres não para dar salvação corporal e terrena, mas para mostrar aos homens que a salvação prometida por Cristo não é terrena e corporal. Assim diz ele: "Havia muitos enfermos, e um só fora curado; mas o Senhor, com uma só palavra, poderia ter posto todos em pé. De consequência se deve concluir o seguinte: Esse poder e essa bondade operavam mais com o propósito que as almas entendessem, através de seus gestos, o sentido que eles possuem em relação à saúde eterna, que não para proporcionar algum benefício aos corpos em relação à saúde temporal?" Em outras palavras, os milagres de Cristo são úteis para a saúde eterna, não para a saúde terrena corporal.

Por isso, Agostinho diz: "não é o caso, de fato, que paremos novamente para comentar sobre os milagres realizados por Deus; por esse mesmo Deus que diariamente em toda a criação realiza maravilhas, as quais, não porque elas são triviais, mas porque são corriqueiras, já não atraem a atenção dos homens." O problema é que consideramos como milagre somente as coisas extraordinárias e nos esquecemos de que o maior milagre são as coisas ordinárias. O maior milagre é que as coisas existam. Isto é, que existe alguma coisa e não o nada. Na realidade, Agostinho está dizendo uma coisa muito simples e profunda: os milagres realizados por Cristo nos evangelhos são pouca coisa se comparados com os milagres que Deus realiza todos os dias (cf. Com. ao Evangelho de São João 24,1). Por exemplo, se observarmos uma semente desabrochando, perceberemos que se trata de um milagre ainda maior do que aqueles relatados nos Evangelhos. Em outras palavras, governar o universo inteiro com suas leis é um milagre maior que qualquer outro. Toda a criação, enquanto obra da graça, é um milagre. Toda a vida é um milagre. Mas o problema é que estamos tão acostumados com a monotonia da lei natural que não percebemos a graça de Deus operando diariamente. A fim de esclarecer-nos, ele diz: "Um homem morto ressuscita, e todos se maravilham; todos os dias nascem homens que não existiam antes, e ninguém se surpreende. Com efeito, quem não se maravilha com a água transformada em vinho, mesmo se Deus faz isso todos os anos nas vinhas?"

Agostinho chama nossa atenção para olharmos a vida como um grande milagre. Em outras obras, convida-nos a olhar para aqueles que são os maiores milagres que Deus fez em prol da humanidade: a encarnação e a paixão. Isto é, o fato de que o Verbo de Deus se tenha feito homem e tenha morrido na cruz pelos homens. Estes grandiosos, majestosos e portentosos fatos devem ser considerados e meditados como os verdadeiros milagres.



Artigo escrito por:
interioridade













Fonte Centro de Estudos Agostinianos
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