Pastores de si mesmos
 
 

Pastores de si mesmos

No terceiro texto da série sobre o Sermão 46 de Santo Agostinho, refletimos sobre o verdadeiro pastor: aquele que se doa, e não o que se serve das ovelhas. Com a força profética de Ezequiel e a lucidez de Agostinho, somos desafiados a discernir entre missão e interesse. Um convite à conversão do coração e ao pastoreio autêntico.

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01.07.2025 - 15:34:00 | 4 minutos de leitura

Pastores de si mesmos

Pastores de si mesmos
Uma reflexão de Santo Agostinho a partir de Ezequiel 34, 3-5 
(Parte III)

Você já parou para pensar o que realmente significa ser pastor do povo de Deus nos dias de hoje?

Num tempo em que tantas lideranças parecem mais preocupadas com seus próprios interesses do que com o bem das pessoas, a voz de Santo Agostinho — ecoando as palavras do profeta Ezequiel — soa como um chamado urgente. Um alerta. Uma convocação.

Cuidar do rebanho, ele nos lembra, não é sobre status ou privilégio. É sobre amor. E amor, de verdade, exige entrega. Sacrifício. Fidelidade.

É viver pelas ovelhas. Não delas.

Nota do autor:
Este é o terceiro texto da nossa série sobre o sermão 46 de Santo Agostinho. Se você ainda não leu a parte anterior, vale a pena dar uma olhada antes para acompanhar melhor a linha do raciocínio. 
Aqui, seguimos refletindo sobre o que é, de fato, ser um pastor: não alguém que apenas recebe apoio, mas alguém que se doa com amor e responsabilidade pelas ovelhas de Deus.

Vivemos tempos difíceis. A imagem do pastor — que deveria ser sinônimo de cuidado e presença — muitas vezes se vê envolta em desconfiança.

E o mais impressionante? A crítica que Ezequiel faz há milênios parece escrita para hoje. Ele diz:

“Lacte vos pascitis, lanis vos tegitis, quod crassum est interficitis, oves autem meas non pascitis” (Sermão 46,3; cf. Ez 34,3-5). Ou seja: os pastores bebem o leite, vestem a lã, matam o que é gordo — mas não cuidam das ovelhas.

É uma denúncia forte. Líderes que vivem para si, e não para o povo. Que se alimentam do que a comunidade oferece, mas não se deixam consumir por ela. Ezequiel não economiza nas palavras: esses pastores não fortalecem os fracos, não curam os doentes, não enfaixam os feridos, não trazem de volta os que se perderam.

É uma inversão completa da missão.

Em vez de protegerem, exploram. Em vez de se doarem, se aproveitam. Santo Agostinho comenta: o “leite” representa o sustento legítimo que os pastores recebem da comunidade. Mas isso só faz sentido quando vem acompanhado de cuidado real, concreto e amoroso pelas ovelhas (cf. s. 46,3).

Paulo entendeu isso como poucos. Mesmo tendo o direito de viver do Evangelho, ele preferiu, muitas vezes, trabalhar com as próprias mãos. Por quê? Porque ele não queria que ninguém confundisse a missão com interesse pessoal.

Ele mesmo pergunta: “Quem planta uma vinha e não come de seu fruto? Quem apascenta um rebanho e não se alimenta do leite do rebanho?” (1Cor 9,7; cf. s. 46,3)

E continua: “Assim ordenou o Senhor aos que anunciam o Evangelho, que vivam do Evangelho” (1Cor 9,14; cf. s. 46,4)

Mesmo assim, Paulo escolheu abrir mão desse direito. E Agostinho destaca: ele “perdoou até mesmo o que lhe era devido” (cf. s. 46,4), agindo como o bom samaritano — aquele que vai além do necessário, e ama sem reservas (cf. Lc 10,35).

Paulo não queria o “dado”. Queria o “fruto”.

Ele escreve: “Não que eu procure o presente, mas o fruto que cresça em vosso crédito” (Fl 4,17; cf. s. 46,4)

Sua alegria estava em ver as ovelhas florescerem, e não estagnadas:

“Queria que as ovelhas fossem fecundas, não estéreis, e se alimentassem do próprio leite”(cf. s. 46,4)

Santo Agostinho estende essa lição a todos que hoje anunciam o Evangelho, mas não têm meios próprios de subsistência. Sim, podem viver do “leite das ovelhas”. Mas sem jamais esquecer para que — e para quem — o fazem.

Ele é direto: “Quem prega, não o faça por necessidade material, mas por amor à verdade e ao bem do povo de Deus” (cf. s. 46,5)

O Evangelho é luz. E como toda luz verdadeira, ele se consome enquanto ilumina. Como a lâmpada que arde com o óleo da caridade (cf. Mt 5,15-16; Lc 12,35; En. in Ps. 46,5).

Receber o sustento é justo. Vender o Evangelho, não.

Agostinho é firme: “Quem vende o Evangelho, vende coisa grande por preço vil” (cf. s. 46,5)

Por isso, quem anuncia a Palavra deve confiar que o povo cuidará de suas necessidades. Mas sua verdadeira recompensa virá apenas de Deus.

O povo pode alimentar o corpo. Só Deus paga o salário do amor (cf. s. 46,5).

Aos que hoje se esforçam para viver essa missão com retidão, nossa prece e gratidão.

Aos que ainda confundem pastoreio com privilégio, que o grito profético de Ezequiel — e a sabedoria de Agostinho — sejam despertadores de consciência.

Que, em tudo, não busquemos o que é nosso, mas o que é de Jesus Cristo.

Assim conclui Santo Agostinho. 
E assim seguimos também nós. (cf. s. 46,5)


Artigo escrito por:
interioridade











Fonte Centro de Estudos Agostinianos
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