Tempos difíceis ou pessoas frágeis?
Neste texto, reflete-se sobre o hábito antigo de reclamar do tempo presente, comparando-o com épocas passadas marcadas por desafios como guerras e crises econômicas. Questiona-se se os tempos atuais são realmente piores ou apenas percebidos assim devido à visibilidade da informação. Também se destaca a perspectiva de Santo Agostinho sobre como enfrentar tempos difíceis, incentivando a busca por mudanças pessoais em vez de lamentações.
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20.05.2024 - 10:49:00 | 4 minutos de leitura

Hoje, gostaria de abordar um hábito muito comum: reclamar do tempo em que vivemos. Reclamar que os tempos são duros e difíceis é uma prática tão antiga quanto a própria história. Lamentar a indolência da juventude desorientada, a corrupção dos políticos e a decadência dos costumes são tendências que encontramos em várias culturas do passado. O célebre orador e escritor romano Cícero, ao lamentar a corrupção generalizada da Roma de seu tempo, teria proferido a famosa frase que frequentemente ecoa em contextos similares: "O tempora, o mores!", que traduzimos literalmente por "Que tempos, que costumes." Mas será que objetivamente os tempos pioraram, ou é apenas uma questão de percepção subjetiva?
A geração atual, assim como a geração desde os anos 60, cresceu sem enfrentar grandes problemas. Para esclarecer: os tempos difíceis foram vividos por aqueles que enfrentaram a Primeira Guerra Mundial, a queda da Bolsa de Valores em 1929, a Segunda Guerra Mundial com o surgimento do nazismo e o horror do Holocausto, a ascensão do comunismo soviético que resultou em milhares de vítimas, a Guerra Fria, entre outros eventos. Será que hoje os tempos são realmente difíceis e aqueles eram mais fáceis? Não podemos afirmar que os tempos anteriores eram melhores que os atuais, apenas que eram diferentes. Julgar que eram melhores implica em uma avaliação moral, enquanto considerar que eram diferentes é um juízo de realidade.
No fundo, penso que se trata de uma questão de percepção. Hoje em dia, como antigamente, há coisas boas e coisas ruins, depende de como as avaliamos. Corrupção, guerra, violência sempre existiram. Nada é novo debaixo do sol, ensina o Eclesiastes. Nossa sociedade é tão corrupta quanto muitas do passado. Existem homens e mulheres moralmente bons hoje, como existiram e existirão futuramente. Mas então, por que essa nossa sensação de que hoje as coisas pioraram? Isso é devido ao fato de estarmos vivendo na era da informação e da tecnologia. Sem dúvidas, o fator decisivo hoje é a visibilidade e transparência das coisas. Vivemos no mundo da informação. Mundo conectado, globalizado. Sabemos em tempo real o que acontece no Japão, por exemplo. Há 20 anos, isso não era possível. Portanto, tendo mais acesso às coisas, elas são muito mais divulgadas e, consequentemente, aumenta-se a sensação de que as coisas só pioram.
Mas quando analisamos o passado, não podemos romantizá-lo e acreditar que era melhor. De fato, um escritor argumentou que essa percepção surge porque o passado já se foi e não nos aflige mais. Como a Mafalda, personagem criada pelo argentino Quino, afirmou de maneira imortal: "Não é certo que o tempo passado tenha sido melhor. O que ocorria é que aqueles em situações piores ainda não haviam percebido isso”.
Santo Agostinho viveu em uma época de profundas transformações, tempos que hoje julgaríamos como verdadeiramente difíceis. Seus paroquianos e ouvintes frequentemente lamentavam o período que Deus lhes destinara para percorrer suas existências. “Maus tempos. Tempos difíceis. Isso é o que dizem as pessoas. Façamos com que nossas vidas sejam boas e nossos tempos também serão bons. Já que somos nós que fazemos os nossos tempos. Do jeito que somos nós, assim são nossos tempos. O que podemos fazer? Talvez não possamos mudar multidões de pessoas para uma vida moralmente boa. Mas façamos com que os poucos que escutam vivam bem. Façamos com que os poucos que vivem bem suportem aqueles que vivem mal” (sermão 311,8,8). Para estes queixosos, Agostinho ensinava algo de grande interesse: os tempos somos nós. Não adianta lamentar que sejam duros e difíceis. Precisamos trabalhar em nós mesmos as mudanças necessárias.
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Fonte Centro de Estudos Agostinianos
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