Toda a nossa esperança está em Cristo: reflexões de Santo Agostinho sobre o que significa ser pastor
 
 

Toda a nossa esperança está em Cristo: reflexões de Santo Agostinho sobre o que significa ser pastor

Vivemos tempos em que muitos desejam o título, mas poucos abraçam o serviço. Em meio às crises e às desilusões, Agostinho se volta às Escrituras para recordar que o verdadeiro Pastor é Cristo — e só n’Ele está nossa esperança que salva.

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19.05.2025 - 17:05:00 | 6 minutos de leitura

Toda a nossa esperança está em Cristo: reflexões de Santo Agostinho sobre o que significa ser pastor

Introdução
«Toda a nossa esperança está em Cristo; Ele é toda a nossa glória — uma glória verdadeira e que salva.» Com essas palavras intensas e cheias de fé, Santo Agostinho abre um de seus mais profundos sermões sobre o ministério pastoral. Ele nos lembra de algo essencial: a verdadeira esperança — aquela que não decepciona, que sustenta e salva — só pode estar firmada em Jesus, o único e verdadeiro Pastor.

Vivemos tempos em que há uma profunda crise de confiança nas lideranças espirituais. Muitos desejam os títulos, os cargos, o reconhecimento… mas poucos assumem com seriedade o cuidado pelas pessoas que lhes são confiadas. Diante dessa realidade, Agostinho volta-se às Escrituras, especialmente ao profeta Ezequiel, relendo uma famosa passagem, para lembrar que ser pastor não é status, mas serviço — e um serviço exigente, marcado por responsabilidade e até perigo.

Queremos meditar com vocês em uma série de pequenos artigos, algumas ideias importantes de Santo Agostinho sobre a natureza, missão e importância dos pastores da Igreja. Tomaremos como base de nossa reflexão, o sermão 46, intitulado Sobre os Pastores. No primeiro artigo da série, nos basearemos nos 3 primeiros parágrafos (§§) do sermão 46.

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1. Cristo: nossa única esperança e verdadeira glória
A primeira frase do sermão é também a chave de leitura para entender todo o resto: «Toda a nossa esperança está em Cristo, porque toda glória verdadeira e salvação vem d’Ele.» Em outras palavras: não há outro nome no qual possamos depositar nossa confiança. Toda glória humana, que não esteja firmada em Cristo, é vazia, passageira e ilusória.
Essa verdade tem um tom pastoral. Agostinho fala ao coração do povo reunido: o rebanho que reconhece em Cristo seu único e verdadeiro Pastor. Ele insiste no óbvio — mas um óbvio que muitas vezes esquecemos: só Deus é digno de nossa confiança plena. Por isso, cita frequentemente em suas obras (38 vezes) o profeta Jeremias: «Maldito o homem que confia no homem. (Jr 17,5)»
Agostinho lembra que aquela não era uma novidade para os ouvintes. «Vocês já ouviram isso antes», ele diz. E é justamente por ser tão importante, que precisa ser repetido: Cristo é o centro da nossa fé e da nossa vida. Ele é quem guia seu povo com cuidado, geração após geração.

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2. O risco dos falsos pastores
O ponto de partida do sermão de Agostinho é a leitura do capítulo 34 do profeta Ezequiel. Ali, Deus pronuncia um julgamento severo contra os pastores de Israel que só cuidam de si mesmos e abandonam as ovelhas. Agostinho aplica esse alerta à realidade da Igreja — da sua época e também da nossa.
Há muitos, diz ele, que querem ser chamados de pastores, mas não querem viver como pastores de verdade: «Gostam do título, mas rejeitam a missão.» Esses, segundo São Paulo, «procuram os próprios interesses e não os de Jesus Cristo» (cf. Fl 2,21).
Apascentar a si mesmo é usar o ministério como um meio para benefícios pessoais: honra, conforto, prestígio. É o contrário de guiar as pessoas para Cristo. E Agostinho não alivia: quem age assim será julgado com rigor. Afinal, o ministério não é lugar para vaidade — é lugar de serviço, de entrega, de amor ao rebanho.

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3. A diferença entre ser cristão e ser bispo
Um dos trechos mais marcantes do sermão é quando Agostinho distingue duas realidades: ser cristão e ser pastor (ou bispo). «São duas coisas diferentes», ele diz. Ser cristão é uma graça, um dom para todos. Mas ser bispo é um peso — uma responsabilidade imensa que deve ser assumida não para benefício próprio, mas para o bem do povo de Deus.
No sermão 340, § 1, pregado por ocasião do aniversário da sua ordenação episcopal, ele fez questão de dizer sobre como ele entendia o seu ministério: “Aterroriza-me o que sou para vós; consola-me o que sou convosco. Pois para vós sou bispo; convosco, sou cristão. Aquele é nome do ofício recebido; este, da graça; aquele, do perigo; este, da salvação”
E com grande humildade, Agostinho admite: às vezes, quem é «só cristão» caminha mais leve na estrada para Deus, porque tem menos responsabilidades. O bispo, por outro lado, responderá não só pela própria vida, mas também por aqueles que lhe foram confiados.
Por isso, ele faz um apelo comovente: «Tenham compaixão de nós. Rezem por nós.» Agostinho não se coloca acima do povo, mas junto do povo. Ele sabe que também será julgado — e por isso pede ajuda, orações, apoio. E sempre frisou que o episcopado, “é um nome de tarefa, não de honra.” (cf. Cidade de Deus 19,19).

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4. Cristo cuida do seu povo, mesmo quando há maus pastores
Mesmo diante dos abusos, omissões e falhas de muitos pastores, Agostinho oferece uma palavra de consolo: «Ouçam como ovelhas de Deus e percebam como Ele garante a segurança de vocês.» A proteção do rebanho não depende do comportamento dos líderes humanos, mas da fidelidade de Deus.
Cristo é o verdadeiro Pastor — e Ele jamais abandona o seu povo. Mesmo quando há maus pastores, Cristo continua conduzindo. Isso é parte do mistério da providência divina: cada um prestará contas de seus atos, e o julgamento virá no tempo certo.
No sermão Sermão 138,1, Agostinho retoma a mesma temática para enfatizar que o único pastor verdadeiro é Cristo e que todos os pastores participam do único pastoreio de Cristo:
O importante, para o povo, é não perder a fé. Não se escandalizar. E, acima de tudo, continuar ouvindo a voz do Pastor verdadeiro.

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Conclusão: Esperar em Cristo, viver como Cristo
Nesta parte do sermão, como conclusão parcial, Santo Agostinho nos convida a uma profunda reflexão sobre o ministério pastoral e um convite pessoal a cada cristão. A esperança que não falha está em Cristo. O verdadeiro pastor é aquele que se deixa usar por Cristo, não buscando holofotes, mas apontando sempre para o Senhor.
E os fiéis? São chamados a ouvir a voz de Jesus, a reconhecer quem realmente os guia com amor, e a permanecer firmes na comunhão da Igreja, onde há vida e salvação.
Agostinho encerra esta parte do sermão, o sermão com uma exortação simples, mas poderosa: «Você quer não ter medo do dia do juízo? Quando ele chegar, que ele te encontre preparado.» O fim do mundo pode parecer distante, mas o fim da nossa vida está sempre próximo. E a melhor forma de viver sem medo é viver em Cristo, com Cristo e por Cristo.


Artigo escrito por:
interioridade












Fonte Centro de Estudos Agostinianos
Imagem Província Agostiniana do Brasil
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