Viver em equilíbrio e moderação
 
 

Viver em equilíbrio e moderação

Agostinho prega equilíbrio entre desejo e moderação: "Nada em excesso". Sua filosofia exorta a buscar o necessário, valorizando a simplicidade sobre o supérfluo. Ele nos lembra que a verdadeira riqueza reside na liberdade dos desejos desenfreados.

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10.04.2024 - 08:03:00 | 3 minutos de leitura

Viver em equilíbrio e moderação

Nos escritos de Santo Agostinho, encontramos frequentemente palavras como ordem, medida, proporção, moderação e equilíbrio. Agostinho, imerso em um contexto clássico filosófico, estava familiarizado com duas ideias fundamentais para o mundo antigo, os quais estão inscritos na entrada do antigo templo de Delfos, na Grécia antiga: "conhece-te a ti mesmo" e "nada em excesso". O ensinamento ético derivado dessa antiga tradição, que Agostinho defendeu com veemência, argumenta que é crucial manter um equilíbrio no uso das coisas.

Na reflexão agostiniana, que se baseia na bondade natural de todas as coisas, o problema não está no objeto em si, mas sempre na vontade do indivíduo. Por exemplo, o ouro é, por natureza, um bem; não há nada intrinsecamente errado nele. O problema reside, então, na vontade moral do sujeito, que, arrastado por desejos pervertidos, acaba por priorizar o ouro em detrimento de outras coisas, conferindo-lhe um valor absoluto que não merece. Assim, Agostinho argumenta que o pecado, em última análise, consiste em abusar do bem, resultando na perda da autonomia da vontade.

Em diversas ocasiões, o bispo de Hipona nos exorta a buscar apenas o necessário, a contentar-nos com pouco e a colocar limites aos nossos desejos. Ele adverte que nada será suficiente para aquele que não controlar seus caprichos sem freios (cf. Com. ao Salmo 147,12). Em sua regra de vida, escrita para os religiosos, ele estabelece um princípio importante: "é melhor precisar de menos do que ter mais" (Regra III,18). Agostinho sempre foi um crítico do supérfluo, do excesso, do desperdício e da acumulação desnecessária.

Em um sermão contundente, ele critica aqueles que possuem em excesso e negligenciam os que têm pouco ou nada. “O que consideramos como supérfluo pode ser vital para outras pessoas” (cf. sermão 147,12). As sobras dos ricos muitas vezes são os recursos essenciais dos pobres. Agostinho concebia riqueza não como posse ou acumulação, mas como controle do desejo e liberdade em relação aos bens materiais. Ele questionava: “quem é, então, verdadeiramente rico? Aquele que não carece de nada” (sermão 127,9; sermão 177,10). Portanto, a busca pela simplicidade nos desejos é crucial para alcançar a liberdade em relação às coisas materiais.

O hiponense sempre enfatizou a importância da moderação e do equilíbrio, que são essencialmente expressões de uma virtude antiga: a temperança. A temperança ensina-nos a ser senhores de nós mesmos, em vez de escravos dos nossos desejos. Por meio dessa virtude, o homem cultiva atributos que o distinguem dos animais, como autocontrole e reflexão. Quando ultrapassamos os limites do razoável, abandonamos a civilidade e mergulhamos na barbárie. Sem controle sobre nós mesmos, tornamo-nos tiranos, impondo nossos caprichos aos outros. Um pouco de sacrifício, autocontrole e limitações torna-nos mais sensíveis ao sofrimento alheio.


Artigo escrito por:
interioridade












Fonte Centro de Estudos Agostinianos
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