Você já se perguntou se é lícito viver do Evangelho?
Santo Agostinho nos provoca com palavras firmes e cheias de compaixão: o pastor não deve apenas se vestir com a lã, mas cuidar da ovelha. Se você busca compreender mais profundamente o que significa verdadeiramente servir o povo de Deus, este texto, meditado a partir do Sermão 46 – Sobre os Pastores, é um convite à conversão do coração e ao zelo pastoral.
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28.05.2025 - 09:52:00 | 3 minutos de leitura

É lícito viver do Evangelho?
Quando o pastor se veste com a lã, mas não cuida da ovelha
Parte III
(Sermão 46,6-8)
Nota do autor: Este é o segundo artigo de uma série sobre o Sermão 46 – Sobre os Pastores, de Santo Agostinho. Na primeira parte, refletimos sobre temas como a esperança em Cristo, os falsos pastores e o peso da missão episcopal. Agora, seguimos com a continuação do texto, aprofundando ainda mais esse chamado exigente e belo que é cuidar do povo de Deus. Se você ainda não leu a primeira parte, ela está disponível aqui neste mesmo site.
Depois de falar sobre «consumir o leite», Agostinho passa a explicar o que significa «vestir-se com a lã das ovelhas». Se o leite simboliza o sustento material recebido da comunidade, a lã representa o reconhecimento público, o prestígio, e até mesmo a adulação. Ele explica: «Quem oferece o leite proporciona sustento; quem oferece a lã proporciona honra» (En. in Ps. 46,6).
Esses dois aspectos – sustento e prestígio – são frequentemente buscados por aqueles que vivem para si mesmos, não para as ovelhas de Deus. Mas o pastor, por mais respeitável que seja, é humano. Agostinho nos lembra: «O líder entre vocês não é nada além de um ser humano. Ele também é de carne, mortal, come, dorme, se levanta; nasceu e morrerá.»
Ao honrá-lo, a comunidade «protege» aquilo que nele ainda é frágil. O respeito e o afeto do povo ajudam o pastor a perseverar, a não desistir. No entanto, isso não significa que ele deva se acomodar.
Paulo, por exemplo, foi profundamente amado pelos gálatas. Ele mesmo testemunha: «Vocês me receberam como um anjo de Deus... Se fosse possível, vocês teriam arrancado os próprios olhos para me dar» (Gl 4,14-15; cf. En. in Ps. 46,7).
Apesar de ser honrado, Paulo não se calou diante do erro. Ele não buscou agradar para manter seu prestígio. Não disse: «Meu sustento está garantido, meu respeito também; que cada um siga seu caminho». Pelo contrário, ele compartilhou o sofrimento de cada ovelha como parte do mesmo corpo vivo: «Se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele» (1Cor 12,26).
Mesmo tendo recebido tanto amor, Paulo não deixou de corrigir os gálatas. Ele não evitou a ferida, mas a tratou com a precisão da verdade. Ele mesmo questiona: «Acaso me tornei seu inimigo por dizer-lhes a verdade?» (Gl 4,16).
Sim, ele se beneficiou do leite, vestiu-se com a lã, mas não negligenciou as ovelhas: «Não buscava o que era seu, mas o que é de Jesus Cristo» (cf. En. in Ps. 46,7).
Por isso, Agostinho adverte: nunca devemos dizer às pessoas: «Façam como quiserem, fiquem tranquilos. Deus não perde ninguém. Apenas mantenham a fé cristã. Ele não deixará de salvar aqueles por quem Ele derramou Seu sangue» (En. in Ps. 46,8).
Não devemos trivializar a misericórdia de Deus. Se encorajarmos as pessoas a seguir prazeres mundanos, como espetáculos, festas e banquetes públicos, como se fossem inofensivos, talvez atraiamos multidões. Talvez nos tornemos populares. Mas estaríamos falando nossas próprias palavras, não as de Deus.
E se falamos de nós mesmos, e não de Cristo, então não somos pastores das ovelhas. Somos apenas pastores de nós mesmos: «Se dissermos essas coisas, seremos pastores que se alimentam a si mesmos, não às ovelhas» (En. in Ps. 46,8).
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Fonte Centro de Estudos Agostinianos
Imagem Província Agostiniana do Brasil
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